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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Diane Arbus e "A Pele"

Nicole Kidman como Diane Arbus

Como admirador do trabalho da fotógrafa norte-americana Diane Arbus, há muito queria assistir ao filme "A Pele", de Steven Shainberg, lançado em 2006. O subtítulo da obra já deixa claro as intenções do diretor: "Um Retrato Imaginário de Diane Arbus". É preciso enfrentar o filme com a guarda baixa, disposto a aceitar as liberdades do autor - liberdades essas que são a origem de suas maiores qualidades e de seus maiores defeitos.

Diane Arbus, autorretrato, 1945

Diane Nemerov nasceu em 1923, na cidade de Nova York, filha de pais judeus ricos, donos da loja de departamentos Russek's, na caríssima Fifth Avenue. Aos 18 anos, ela casou-se com seu namorado de longa data, Allan Arbus, com quem teria duas filhas. Ambos se interessavam por fotografia, e foram contratados pelo pai de Diane para fazer as fotos promocionais de sua loja. Em 1946, eles abriram um estúdio comercial, com Allan como fotógrafo e Diane como assistente. Eles fizeram fotos para as revistas Vogue, Harper's Bazzar, Seventeen e Glamour, embora odiassem o mundo da moda.


Após estudar fotografia, em 1956 Diane abandonou a moda e começou a fazer trabalhos para publicações mais sérias, como Esquire e The Sunday Times Magazine. Durante os anos 60, ela deu aula na Parsons School of Design e na Cooper Union, em Nova York, e na Rhode Island School of Design, em Providence, Rhode Island. Sua primeira grande exposição ocorreu no Museum of Modern Art, em 1967, junto aos fotógrafos Garry Winogrand e Lee Friedlander.



Arbus sempre teve interesse em retratar pessoas comuns de forma crua, certamente em contraposição aos anos trabalhando com moda e à sua própria experiência como a menina rica filha dos donos da Russek's, um templo de luxo e ostentação. Isso acabou levando-a a retratar doentes mentais, prostitutas, anões, nudistas e travestis, entre outros outsiders, fazendo com que ela fosse rotulada, de certa forma injustamente, como a "fotógrafa das aberrações".



Sua obra vai muito além disso, alcançando uma dimensão psicológica do retratado como nenhum fotógrafo havia feito, misturando estranheza e proximidade, além da acuidade cromática - a dramaticidade dos contrastes em preto e branco e a suavidade dos cinzas. Sua fotografia, contudo, recebeu tanto elogios quanto críticas pesadas - a escritora e feminista australiana Germaine Greer, retratada por Arbus em 1971, disse que seu retrato era "indiscutivelmente ruim" e que o trabalho dela era pouco original e preocupado apenas com "a imperfeição e a desilusão humanas". Outros, como o grande crítico Robert Hughes, viam a sua obra como revolucionária.



Diane Arbus, já separada de Allan desde 1958, sofria de depressão (segundo ele, ela tinha "mudanças violentas de humor") e suicidou-se em 26 de julho de 1971, ingerindo barbitúricos e cortando os pulsos. Ela tinha 48 anos.


"A Pele" merece ser elogiado por não ser uma cinebiografia tradicional e "careta", mas essa opção arriscada de Shainberg acaba por afastar excessivamente sua personagem da verdadeira Diane Arbus, e embora a personagem de Nicole Kidman tenha uma trajetória interessante, ficamos nos perguntando o quanto ela tem da fotógrafa nova-iorquina. O filme se detém demasiado numa Kidman titubeante, ansiosa por deixar para trás sua vida social medíocre e assumir algo que ela não sabe bem o que é, mas que no filme se materializa no vizinho Lionel Sweeney, que sofre de uma doença rara chamada hipertricose, que faz com que ele tenha o corpo totalmente coberto de pelos. A partir daí, o filme se concentra no relacionamento dos dois, cada vez mais íntimo, e nos problemas que naturalmente surgem na vida familiar dela. Sweeney também a apresenta a um mundo de freaks como ele, uma referência às famosas fotos de Arbus.

Nicole Kidman e Robert Downey Jr.

Um dos pontos altos do filme são as atuações de Kidman e Downey Jr., dois atores excepcionais. Ele, em especial, consegue passar uma gama de emoções e gerar empatia tendo, como ferramenta, apenas o olhar e o tom de voz. Nicole, em 2006, ainda sem o Botox que destruiria a sua expressão, é de uma beleza e de uma doçura estonteantes. O que vemos nos 122 minutos de filme é uma história de abandono e de encontro, de esperanças e de tristeza, embalada por uma fotografia belíssima. No entanto, a opção do diretor de deixar de lado os fatos e se concentrar num evento fictício - com o propósito de investigar os reais motivos da atração de Arbus pelo proibido e pelo estranho - é apenas uma conjectura, e terminamos com a incômoda sensação de que não conhecemos quase nada dessa grande fotógrafa que foi Diane Arbus.


Para ver um álbum com imagens da fotógrafa, clique no link na barra ao lado (o retrato de Germaine Greer está na página 77)

Clique abaixo para assistir ao documentário sobre Diane Arbus da série Masters of Photography (em inglês, sem legendas):

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Filmes sobre Pintores

Preparei uma lista com as principais cinebiografias de pintores famosos - das mais óbvias a algumas mais obscuras. Deixei de lado documentários, minisséries e filmes para TV e me concentrei em longa-metragens para o cinema. Os filmes estão em ordem cronológica crescente, do Rembrandt de Alexander Korda de 1936 ao Rembrandt de Peter Greenaway de 2007.


Rembrandt
Inglaterra, 1936
Diretor: Alexander Korda
O famoso ator inglês Charles Laughton interpreta o mestre holandês Rembrandt van Rijn no auge de sua fama, em 1642, quando sua adorada esposa morre e sua obra assume um tom sombrio e amargo que desagrada a seus patronos. O filme acompanha a decadência financeira e o ostracismo do pintor ao lado
da criada Hendrickje (Elsa Lanchester), com quem ele não pode se casar.


Moulin Rouge
Inglaterra, 1952
Diretor: John Huston
O filme acompanha a vida do pintor Henri de Toulouse-Lautrec e suas andanças pela noite parisiense. Filho de um conde, o artista francês sofre um acidente na infância que deforma suas pernas, provavelmente em decorrência de uma distrofia. Já adulto, passa a frequentar o Moulin Rouge, onde bebe conhaque e se envolve com prostitutas, que são retratadas em suas pinturas e cartazes, morrendo aos 36 anos de alcoolismo e sífilis. O ator José Ferrer interpreta o artista.


Sede de Viver (Lust for Life)
Estados Unidos, 1956
Diretor: Vincente Minnelli
Vincent Van Gogh é um prato cheio para qualquer cineasta: artista genial e trágico, obcecado por sua pintura, perturbado e incapaz de ter uma vida normal, que vive às custas do irmão Theo (James Donald). Kirk Douglas dá vida ao famoso holandês, que vende apenas um quadro em vida e tem pouquíssimos amigos, entre eles Paul Gauguin (Anthony Quinn, que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante).


Os Amantes de Montparnasse 
(Les Amants de Montparnasse / Montparnasse 19)
França, Itália, 1958
Diretor: Jacques Becker
Gérard Philipe interpreta o trágico pintor italiano Amedeo Modigliani em seu último ano em Paris, em 1919 (ele morreria em janeiro de 1920). Modigliani é apresentado à estudante Jeanne Hébuterne (Anouk Aimée), de família conservadora, que não aprova seu relacionamento com o pintor pobre e alcóolatra. Jeanne, que estava prestes a dar à luz pela segunda vez, se suicida um dia após a morte do artista.


Agonia e Êxtase (The Agony and the Ecstasy)
Estados Unidos, Itália, 1965
Diretor: Carol Reed
Um verdadeiro clássico, com cinco indicações ao Oscar, o filme mostra o embate entre Michelangelo (Charlton Heston) e o Papa Júlio II (Rex Harrison), durante a pintura do teto da Capela Sistina. Baseado no romance de Irving Stone, que dividiu o roteiro do filme com Philip Dunne. Curiosidade: a Capela Sistina
não pôde ser usada para as filmagens e teve que ser reconstruída nos estúdios da Cinecittà em Roma.


Andrei Rublev, O Artista Maldito (Andrey Rublyov)
União Soviética, 1966
Diretor: Andrei Tarkovsky
O controverso diretor de "Solaris", "Stalker" e "O Sacrifício" filmou a vida de Andrei Rublev (1360-1430), considerado o maior pintor russo de ícones, afrescos e iluminuras, canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa em 1988. Sendo Tarkovsky quem é, espere tudo menos uma narrativa convencional. O filme, apesar de ter sido apresentado em Cannes em 1969, só foi lançado sem cortes na União Soviética em 1971,
e é considerado por muitos uma obra-prima.


El Greco
Itália, França, Espanha, 1966
Diretor: Luciano Salce
Pelo cartaz ("O homem... a época... ambos pegando fogo... agora em filme!") já dá pra perceber que a obra não é das mais felizes. O ator norte-americano Mel Ferrer interpreta o famoso pintor renascentista, nascido Domenikos Theotokópoulos na ilha de Creta e falecido em Toledo, na Espanha. Uma nova cinebiografia do pintor, também intitulada "El Greco" e dirigida pelo grego Iannis Samaragdis, foi lançada em 2007.


 Excesso e Punição (Exzesse)
Alemanha Ocidental, França, Áustria, 1981
Diretor: Herbert Vesely
Cinebiografia não-linear do pintor austríaco Egon Schiele (1890-1918), famoso por seus retratos nus, considerado por muitos pornográficos e grotescos, chegando a ser preso em 1912 por supostamente seduzir uma menor de idade (no filme, interpretada por Karina Fallenstein). O alemão Mathieu Carrière (o Jan de "Malpertuis") interpreta Schiele, e Jane Birkin dá vida à sua companheira Wally.


Caravaggio
Inglaterra, 1986
Diretor: Derek Jarman
    O diretor inglês, morto em 1994 em decorrência da AIDS, faz um retrato apaixonado - e livre - do pintor italiano, o maior gênio do Barroco. Nigel Terry interpreta Caravaggio na idade adulta, quando participa de um triângulo amoroso entre Ranuccio (Sean Bean) e Lena (Tilda Swinton, em seu primeiro papel no cinema). Com belíssimas fotografia e direção de arte, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim.


Gauguin, Um Lobo Atrás da Porta 
(Oviri / Gauguin, Le Loup Dans le Soleil)
Dinamarca, França, 1986
Diretor: Henning Carlsen
Donald Sutherland interpreta o francês Paul Gauguin. Após uma longa temporada no Taiti, o artista volta para Paris na esperança de ter sucesso com pintor. Ao mesmo tempo, precisa enfrentar a mulher, os filhos e sua ex-amante. Max Von Sydow faz o escritor sueco August Strindberg (que, em 1895, se recusou a escrever um texto de apresentação para uma exposição de Gauguin, chamando-o de "selvagem")


Van Gogh - Vida e Obra de um Gênio 
(Vincent & Theo)
Holanda, Inglaterra, França, Itália, Alemanha, 1990
Direção: Robert Altman
O título asinino dado pela distribuidora do filme no Brasil dá a impressão de se tratar de um documentário sobre o artista holandês, e não o que o filme é: um retrato intimista da relação entre Van Gogh e seu irmão, Theodore. Destaque para a estupenda interpretação de Tim Roth. Originalmente concebido como uma minissérie de quatro horas para a BBC.


Dalí
Espanha, Bulgária, 1991
Diretor: Antoni Ribas
Cinebiografia um tanto pobre do amalucado pintor surrealista Salvador Dalí, aqui interpreado por Lorenzo Quinn, filho do ilustre Anthony Quinn. O filme se concentra em seu relacionamento com Gala (Sarah Douglas), a temporada que passaram em Nova York, em 1940, e sua colaboração com o cineasta
Luis Buñuel. Vale apenas como curiosidade.


Van Gogh
França, 1991
Diretor: Maurice Pialat
O Diretor de "Sob o Sol de Satã" (Palma de Ouro em Cannes em 1987) registra os últimos 67 dias de vida do pintor holandês, quando ele se muda para Auvers-sur-Oise, cercanias de Paris, para se tratar com
o Dr. Gachet. Jacques Dutronc ganhou o Prêmio César de melhor ator de 1992 por sua interpretação,
das onze indicações que o filme recebeu.


Carrington - Dias de Paixão (Carrington)
Inglaterra, França, 1995
Diretor: Christopher Hampton
O roteirista e diretor bissexto Hampton criou uma belíssima obra, que se concentra no relacionamento platônico e conturbado entre a pintora Dora Carrington e o escritor Lytton Strachey na Inglaterra vitoriana (ambos eram do grupo Bloomsbury, do qual fazia parte Virginia Woolf). Emma Thompson e Jonathan Pryce têm atuações impecáveis. Hampton ganhou o Grande Prêmio do Júri (concorria à Palma de Ouro) e Pryce,
o de Melhor Ator em Cannes de 1995.


Basquiat - Traços de uma Vida (Basquiat)
Estados Unidos, 1996
Diretor: Julian Schnabel
Filme de estreia do renomado pintor norte-americano Julian Schnabel (que viria a fazer também os ótimos "Antes do Anoitecer" e "O Escafandro e a Borboleta"). O filme mostra a curta trajetória do pintor neo-expressionista Jean-Michel Basquiat (1960-1988), que começou pintando grafitis nas ruas de Nova York até alcançar fama mundial, vindo a morrer de overdose de heroína aos 27 anos. Uma curiosidade
do filme é David Bowie no papel de Andy Warhol, seu "descobridor".


Os Amores de Picasso (Surviving Picasso)
Estados Unidos, 1996
Diretor: James Ivory
Baseado no livro de Arianna Huffington, co-roteirista do filme, trata-se das memórias de Françoise Gilot, uma das mulheres de Picasso, com quem teve dois filhos (Claude e Paloma). O título em inglês define o dilema de Gilot: como sobreviver a Picasso, um homem genial e genioso, encantador e infiel, generoso e dominador? Anthony Hopkins é sempre um bom ator, mas um Picasso falando inglês com sotaque britânico
é difícil de engolir. Com Natascha McElhone e Julianne Moore.



Artemisia
Itália, França, Alemanha, 1997
Diretora: Agnès Merlet
Artemisia Gentileschi (1593-1652) foi uma pintora barroca italiana, a primeira mulher a ingressar na Accadema di Arte del Disegno de Florença. Filha do pintor Orazio Gentileschi, é enviada para estudar com o mestre Agostino Tassi, a quem depois acusa de estuprá-la, num longo e penoso julgamento.
Indicado para o Globo de Ouro de 1998 como Melhor Filme Estrangeiro.


Lautrec
Espanha, França, 1998
Diretor: Roger Planchon
Diferente da cinebiografia de John Huston, que mostra as noitadas do pintor francês no Moulin Rouge,
o filme se concentra no próprio Lautrec (Régis Royer), principalmente em seu relacionamento com sua modelo Suzanne (Elsa Zylberstein). A cuidadosa reconstituição da época rendeu dois prêmios César (Figurino e Desenho de Produção) e Royeur ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Mar del Plata.


Love Is the Devil: Study for a Portrait of Francis Bacon
Inglaterra, França, Japão, 1998
Diretor: John Maybury
A tensão sexual latente nos quadros de Francis Bacon (1909-1992) é explorada neste filme, que se concentra no relacionamento do pintor britânico com George Dyer (interpretado por um então desconhecido Daniel Craig), 30 anos mais jovem. A semelhança física do ator inglês Derek Jacobi com Bacon é um achado. Os herdeiros do artista não autorizaram que nenhuma obra fosse mostrada. Como narrativa, está mais próximo do Caravaggio de Jarman do que de cinebiografias mais convencionais.


Goya (Goya en Burdeos)
Espanha, Itália, 1999
Diretor: Carlos Saura
Saura capta a fase final da carreira do mestre espanhol Francisco de Goya (1746-1828), durante o seu exílio voluntário em Bordeaux, na França. A fotografia de Vittorio Storaro (vencedor de três Oscar) é garantia de imagens esplendorosas, além dos "quadros vivos" interpretados pelo grupo La Fura dels Baus. Curiosamente, Franciso Rabal ganhou o Prêmio Goya (o mais importante da Espanha) pela sua interpretação.


Pollock
Estados Unidos, 2000
Diretor: Ed Harris
Verdadeiro tour de force de Ed Harris, que produziu, dirigiu e protagonizou a cinebiografia do pintor americano. Seu fascínio por Jackson Pollock (1912-1956) começou simplesmente porque seu pai lhe comprou um livro do pintor por achar que eles se pareciam. Lee Krasner, esposa do pintor, é interpretada com intensidade por Marcia Gay Harden, o que lhe rendeu um Oscar de Atriz Coadjuvante.


Frida
Estados Unidos, Canadá, México, 2002
Diretora: Julie Taymor
Projeto acalentado durante anos por Salma Hayek (que o produziu e protagonizou), o filme se concentra, como não poderia deixar de ser, no relacionamento conturbado de Frida Kahlo (1907-1954) com o pintor e muralista Diego Rivera (Alfred Molina), além dos flertes com gente da estatura de Leon Trotsky (Geoffrey Rush) e seu sofrimento físico. Ashley Judd tem uma participação luminosa como Tina Modotti.


Moça com Brinco de Pérola
(Girl with a Pearl Earring)
Inglaterra, Luxemburgo, 2003
Diretor: Peter Webber
O grande mérito dos roteiristas e do diretor foi fazer um filme com quase nada, pois pouco se sabe sobre a vida do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675). O roteiro foi baseado na história, basicamente fictícia, da escritora Tracy Chevalier. Colin Firth e Scarlett Johansson se esforçam para dar algum estofo ao filme que se sustenta principalmente na bela fotografia e na direção de arte.


Rumo ao Paraíso (Paradise Found)
Austrália, Inglaterra, França, Alemanha, 2003
Diretor: Mario Andreacchio
Cinebiografia de Paul Gauguin (1848-1903), que abandonou uma carreira sólida como corretor em Paris, a família e os filhos, para tentar se firmar como pintor, indo depois passar uma temporada no Taiti. Kiefer Sutherland e Nastassja Kinski são desperdiçados num bote sem rumo, que nada tem a ver com a estúpida chamada que se lê no DVD brasileiro.


Modigliani, Paixão pela Vida (Modigliani)
Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Romênia, Inglaterra, 2004
Diretor: Mick Davies
Mais uma cinebiografa de Modigliani, esta inferior a "Os Amantes de Montparnasse". Assim como no filme francês, este também se concentra em seu último ano de vida em Paris. Andy Garcia interpreta o pintor italiano e Elsa Zylberstein é Jeanne Hébuterne, a trágica esposa. Uma curiosidade: a atriz francesa interpretou Suzanne Valadon no filme "Lautrec". Mais um subtítulo idiota - de onde sai essa gente?


Sombras de Goya (Goya's Ghosts)
Estados Unidos, Espanha, 2006
Diretor: Milos Forman
O grande diretor tcheco, vencedor de dois Oscar ("Um Estranho no Ninho" e "Amadeus") uniu-se ao roteirista Jean-Claude Carrière para pintar um quadro sombrio da Inquisição Espanhola. Goya (Stellan Skarsgard) vê sua musa Inés (Natalie Portman) cair nas garras dos inquisidores, enquanto o padre Lorenzo (Javier Bardem) tenta usar de sua influência para libertá-la.


Klimt
Áustria, França, Alemanha, Inglaterra, 2006
Diretor: Raoul Ruiz
O diretor chileno, ainda atuante aos 70 anos, faz um retrato livre e por vezes tortuoso do pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918), interpretado por John Malkovich. Em seu leito de morte em um hospital, Klimt se recorda da Viena do fim do século, das exposições em Paris, de sua família e suas muitas amantes. Uma curiosidade: o filme foi concebido pelo roteirista e diretor vienense Herbet Vesely, que em 1981 realizou o filme "Exzesse" sobre Egon Schiele, contemporâneo e amigo de Klimt.


El Greco
Grécia, Espanha, Hungria, 2007
Diretor: Yannis Smaragdis
O filme mais caro da história da Grécia (6 milhões de euros) dá com os burros n'água ao optar por um formato convencional e arrastado para narrar a vida do pintor El Greco. Exibido na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2008, a obra conseguiu ser odiada com unanimidade. Roteiro, atores, direção, trilha sonora - nada consegue ir além da mediocridade, prestando um verdadeiro desserviço à memória e à obra do grande pintor da Renascença Espanhola.


Ronda da Noite (Nightwatching)
Holanda, Canadá, Inglaterra, França, Polônia, 2007
Diretor: Peter Greenaway
O diretor britânico Peter Greenaway estudou pintura na juventude, e uma marca registrada de seus filmes são as composições inspiradas em quadros renascentistas, principalmente dos mestres flamengos. Neste filme, ele investiga o famoso quadro "Ronda da Noite", de Rembrandt, no qual o diretor acredita estarem os acusados de um crime. No ano seguinte, Greenaway faria o documentário "Rembrandt's J'Accuse...!", em que investiga mais a fundo a mesma obra do mestre holandês.

domingo, 10 de julho de 2011

Touros Indomáveis

Em 1968, a Paramount comprou os direitos do livro "O Poderoso Chefão", de Mario Puzo, que faria também o roteiro do filme. O chefe do estúdio na época, Robert Evans, ofereceu o projeto a vários diretores, que recusaram. Ele então percebeu que todos os filmes sobre a máfia haviam sido dirigidos por judeus, e imaginou que seria melhor chamar um diretor italiano, para que o filme "cheirasse a espaguete". Seu colega Peter Bart sugeriu um jovem cineasta, Francis Ford Coppola. Evans relutou a princípio (Coppola era tido como um talento promissor, mas havia feito três filmes que não deram bilheteria), mas deu o sinal verde. Coppola a princípio também recusou, porque queria fazer filmes autorais - ele gostava de filmes europeus, não estava interessado num projeto "comercial" de estúdio nenhum. Porém, ele havia criado a produtora Zoetrope, que estava mal das pernas, e devia 300 mil dólares à Warner, e acabou aceitando. O resto é história - "O Poderoso Chefão" foi sucesso de crítica e público (ganhando três Oscar em 1972 - melhor filme, roteiro e ator para Marlon Brando) e Coppola alcançaria o status de grande diretor (embora sempre endividado).

As duas opções de capa da edição brasileira

Esta é uma das histórias (contadas longamente e com detalhes deliciosos) do livro "Easy Riders, Raging Bulls: How the sex-drugs-and-rock'n'roll generation saved Hollywood", do jornalista norte-americano Peter Biskind, que entrevistou pessoalmente centenas de pessoas, entre diretores, produtores, atores, roteiristas, esposas e ex-esposas, desenterrando histórias tão picantes que a revista Time Out disse que ele deve ter um belo time de advogados. A edição brasileira (Intrínseca, 502 páginas) manteve o título em inglês (dos filmes "Sem Destino" e "Touro Indomável") e traduziu o subtítulo, além de lançá-lo em duas capas. A tradução é da jornalista e crítica de cinema Ana Maria Bahiana.

Marlon Brando e Francis Coppola em 1971

O livro fala da fase que mais gosto do cinema norte-americano, a década de 70, quando um bando de novos cineastas, brilhantes, impetuosos, de certa forma arrogantes e muitas vezes irresponsáveis tomaram o poder das mãos dos grandes estúdios e fizeram aquilo que Coppola sonhava: um cinema original e corajoso, tal qual seus colegas europeus faziam. O marco zero dessa produção é exatamente o filme "Sem Destino" (1969), dirigido por Dennis Hopper, que provou que era possível realizar um filme autoral de baixo orçamento e ainda assim obter boa bilheteria, abrindo caminho para outros cineastas. E o que se seguiu foi uma avalanche de filmes memoráveis de uma geração que incluía, além de Coppola (que faria ainda "O Poderoso Chefão II e III", "A Conversação" e "Apocalypse Now"), Martin Scorsese ("Caminhos Perigosos", "Alice Não Mora Mais Aqui", "Taxi Driver", "Touro Indomável"), Peter Bogdanovich ("A Última Sessão de Cinema"), Stanley Kubrick ("2001, Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica"), John Cassavetes ("Uma Mulher Sob Influência"), Robert Altman ("M.A.S.H.", "Nashville"), Mike Nichols ("Ardil 22", "Ânsia de Amar"), Woody Allen ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", "Manhattan"), William Friedkin ("Operação França", "O Exorcista"), Hal Ashby ("Ensina-me a Viver", "Amargo Regresso"), Arthur Penn ("Bonnie e Clyde", "Duelo de Gigantes"), Alan Pakula ("A Trama", "Todos os Homens do Presidente"), Brian de Palma ("Carrie, a Estranha"), Bob Fosse ("Cabaret"), Sydney Pollack ("A Noite dos Desesperados", "Nosso Amor de Ontem"), Terrence Malick ("Terra de Ninguém"), Sidney Lumet ("Serpico", "Um Dia de Cão", "Rede de Intrigas"), George Lucas ("Loucuras de Verão", "Guerra nas Estrelas") e Steven Spielberg ("Encurralado", "Tubarão", "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"). Alguns diretores europeus também aproveitaram a onda e realizaram grandes filmes em Hollywood, como John Boorman ("Amargo Pesadelo"), John Schlesinger ("Perdidos na Noite"), Nicholas Roeg ("Inverno de Sangue em Veneza", "O Homem que Caiu na Terra"), Milos Forman ("O Estranho no Ninho"), Roman Polanski ("O Bebê de Rosemary", "Chinatown"), Bernardo Bertolucci ("O Último Tango em Paris") e Louis Malle ("Pretty Baby", "Atlantic City"). Cineastas veteranos também aproveitaram a onda e tiveram a liberdade necessária para fazer alguns de seus melhores trabalhos, como Sam Peckinpah ("Sob o Domínio do Medo"), Don Siegel ("Perseguidor Implacável") e John Huston ("Cidade das Ilusões", "O Homem que Queria Ser Rei").

Robert De Niro e Martin Scorsese em 1975

"Easy Riders, Raging Bulls" descreve a trajetória de todos esses diretores durante a década de 70, com seus problemas com os estúdios, as dificuldades nas filmagens, a relação com os atores, as drogas, as mulheres, os excessos e, por fim, como o fracasso retumbante de filmes caríssimos como "O Portal do Paraíso" (1980, de Michael Cimino, que havia feito "O Franco Atirador"), fez com que os estúdios fechassem as torneiras para financiar essa geração e retomassem o controle sobre as produções, tendo como meta uma única coisa: o lucro. Hollywood nunca havia tido e jamais voltaria a ter essa liberdade para ousar. Hoje, cineastas como Coppola e Woody Allen têm dificuldade para financiar seus filmes nos Estados Unidos. O primeiro se vale de sua produtora de vinhos para fazer filmes pequenos e independentes, o segundo vai buscar dinheiro na Europa. Nesta época de blockbusters e cineastas que filmam com um olho no visor da câmera e outro no manual de etiqueta de Hollywood, só nos resta rever esses antigos mestres e lembrar que cinema pode, sim, ser feito com originalidade e colhões.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Woody Allen: Meio-Dia em Paris, na fila do Louvre

Uma vez perguntaram a Miles Davis sobre os "anos dourados" do jazz, ao que ele retrucou: "Que anos dourados? Nós éramos pobres, desesperados. Um se suicidava, o outro vendia o instrumento para comprar droga. É isso que você chama de anos dourados?" (ou algo parecido, estou citando de cabeça). E isso nos remete a essa nossa mania de nutrirmos uma nostalgia de épocas que não vivemos, pois, no conforto de nossas poltronas, é fácil enxergar apenas o lado romântico de vidas dolorosamente conturbadas, ainda mais quando essas épocas geraram tantas obras de arte excepcionais. Nada mais suculento para um crítico do que um artista genial e trágico: ele pode aliar sua genuína admiração ao gênio a esse prazer recôndito e inconfesso que nos toma ao lermos sobre essas figuras, o mesmo prazer (inconfesso, repito) que temos ao ler sobre a morte de alguma celebridade. Nós adoramos figuras trágicas, talvez porque ela nos façam lembrar que, no final das contas, somos todos humanos. Para citar figuras do esporte, Ayrton Senna virou um ídolo, com direito a monumento público. Emerson Fittipaldi, um ícone que merecia respeito maior, é solenemente ignorado. Seu pecado? Ele continua vivo e feliz. Nós idolatramos Van Gogh e ignoramos o gênio de Cézanne, que afinal foi quem deu início a todos os movimentos do começo do Século XX. Cézanne não se suicidou como Van Gogh, não morreu pobre e alcóolatra como Modigliani (cuja mulher, grávida, se suicidaria logo depois), nem era um marqueteiro de primeira grandeza como Picasso. Era discreto, levou uma vida pacata e morreu aos 67 anos (muito para aquela época). Não importa ele ter sido um gênio e um visionário. Sua vida não teve "graça", e ele foi relegado a um pé de página.



E foi com isso em mente que vi ontem "Meia-Noite em Paris", último filme de Woody Allen. A esta altura, todos já sabem do enredo: roteirista norte-americano vai a Paris com a família da noiva, fica entediado, começa a caminhar à noite e é magicamente transportado para os anos 20, a época que ficou imortalizada no livro "Paris é uma Festa", de Ernest Hemingway, e vem causando comichões em artistas e aspirantes a artistas desde então. No livro, Hemingway fala de sua convivência com os escritores F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Ezra Pound e Gertrude Stein, cuja "Autobiografia de Alice B. Toklas" também nos dá um inspirado panorama daquela geração que havia acabado de sobreviver à Primeira Guerra. Todo mundo estava em Paris, era lá que as coisas aconteciam. Os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí flanavam por suas ruas, ao lado dos mestres franceses que criavam movimentos como quem troca de roupa. O modernismo ganhava força, as vanguardas assombravam a todos. O mundo parecia um grande gabinete de curiosidades. Vendo em restrospecto, sentimos até uma certa pena desse entusiasmo - em 1939 o mundo escureceria de vez, e Paris seria invadida pelos alemães e humilhada até 1944. Artistas se suicidariam, seriam mortos ou fugiriam como ratos na calada da noite. Quem tem nostalgia dessa época certamente preferiria pular essa parte.

Ernest Hemingway
Antes de continuar, gostaria de dizer que sou fã de Woody Allen. Já vi quase todos os seus filmes, li seus livros, sei frases suas de cor, que vivo repetindo. Mas o humorista brilhante tem uma outra faceta, que domina a sua vida e vez ou outra emerge em seus filmes: um norte-americano neurastênico que desdenha a atual cultura de seu país (com certa razão) e um poser que venera a cultura europeia com indisfarçável inveja - aquele que emulou Ingmar Bergman em "Interiores" (1978) e agora põe todas as suas cartas na mesa - e essas cartas não têm a menor graça. No filme, Allen contrapõe seu alter ego, o roteirista Gil (Owen Wilson) ao pedante Paul (Michael Sheen), sem perceber que os dois se equivalem. Allen despreza e desdenha a sociedade americana, principalmente a de alta classe, sempre descrita como medíocre e arrogante, mas ela está sempre lá, em seus filmes, numa Nova York edulcorada, os pedantes bem-nascidos a falar de Dostoiévksi como quem fala da trufa branca do Piemonte: um artigo raro e obrigatório a se exibir durante o jantar. Gil ganha uma grana preta como roteirista, tem uma noiva bela e fútil e sonha com o romantismo da Paris dos anos 20. Em suma, Gil é um bobo, e Allen não poderia ter escolhido um ator mais abobalhado para o papel. E o fato de ele pronunciar Rodin como "road ann" só piora as coisas.
E então começa o maior problema do filme: o desfile de mitos que frequentavam os cafés e as festas da Cidade das Luzes. Se conseguir um ator para protagonizar um único personagem nessas cinebiografias já é difícil, o que dirá de vários deles. Corey Stoll tenta dar masculinidade ao seu Hemingway, mas não convence nem a própria mãe. Alison Pill nos faz acreditar que, se encontrássemos Zelda Fitzgerald tentando se suicidar, certamente daríamos um empurrãozinho. E os atores desconhecidos prestam um verdadeiro desserviço a grandes artistas: Buñuel é apenas um bobalhão, além de pouco inteligente; Toulouse-Lautrec é só um anão inexpressivo; Pablo Picasso tem o charme de uma maçaneta e Gertrude Stein é uma matrona ansiosa e tagarela (talvez fosse mesmo). A única exceção é o formidável Adrien Brody, que em cinco minutos salva o filme com sua interpretação do amalucado Salvador Dalí. Aliás, o encontro com os surrealistas, apesar do Buñuel narcoléptico, é a melhor piada do filme. E Brody lembra de algo que a maioria dos atores norte-americanos parece esquecer: que existe uma coisa chamada pronúncia, e outra chamada sotaque, e que essas coisas deveriam fazer parte da construção do personagem - a época dos soldados romanos falando inglês britânico já passou. E o desfile de celebridades dos anos 20 continua, e ficamos nos perguntando por que mesmo essas pessoas tão superficiais e pretensiosas fazem parte do nosso imaginário. A resposta é óbvia - porque foram artistas brilhantes - mas o filme sequer nos deixa entrever isso. E, no final, Allen chega à mesma conclusão que a do início do meu texto: nós sempre estamos idealizando gerações passadas e desdenhando a nossa própria. E romantizamos vidas que foram verdadeiramente dolorosas e trágicas. Hemingway se matou com uma tiro de espingarda em 1961. Sentir nostalgia já é uma bobagem. Sentir nostalgia de uma época que não vivemos é risível.

domingo, 19 de junho de 2011

Montgomery Clift e "Freud, Além da Alma"

Esta semana finalmente vi "Freud, Além da Alma", o filme de John Huston de 1962, que havia anos estava na minha lista de filmes-clássicos-que-não-posso morrer-sem-assistir. Como toda obra-prima, é um trabalho belamente imperfeito e corajoso, com grandes qualidades que suplantam alguns erros. O filme de Huston é uma típica cinebiografia, reverente desde a cena de abertura, em que compara o gênio de Freud (com toda a razão) aos de Copérnico e Darwin. O filme se concentra em seus primeiros anos de pesquisa em Viena, antes de formular a Teoria da Psicanálise e mudar irredutivelmente a forma como o Homem vê a si próprio. Huston chamou para escrever o roteiro do filme ninguém menos do que o filósofo Jean-Paul Sartre, que tempos depois lhe entregou um calhamaço que o diretor norte-americano classificou de "infilmável". Sartre respondeu que diretores de cinema "não gostam de pensar" e pediu que seu nome fosse retirado do projeto. O roteiro, um tanto didático, acabou sendo escrito por Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt. Para o papel principal, Huston chamou Montgomery Clift, com quem havia trabalhado em "Os Desajustados" ("The Misfits"), um ano antes. Algumas pacientes de Freud são condensadas na figura de Cecily Koertner, interpretada com brilho por Suzannah York, e uma cena em particular mostra a força de Huston como cineasta: aquela em que Freud diz a Cecily que, naquela sessão em particular, ele não usaria a hipnose, que ela poderia relatar seus sonhos conscientemente. Quando ela começa a falar e se mostra desconfortável, ele afasta a sua cadeira para sair do campo de visão da paciente - nesse exato momento é criada a forma clássica de psicanálise.


Mas o grande problema do filme, a meu ver, é exatamente Montgomery Clift, que passa o filme como se estivesse no meio de uma crise de colite (da qual ele de fato sofria), os olhos esbugalhados e a boca entreaberta, como se estivesse vendo um monstro num filme de terror. Se a decadência física e psicológica de "Monty" haviam caído como uma luva em "Os Desajustados" e em sua única e pungente cena em "Julgamento em Nuremberg" (1961), aqui ela é apenas estranha e fora de lugar, ainda mais quando sabemos que Sigmund Freud era um homem calmo e de fronte serena. Monty era um grande ator, mas no fim da vida - ele morreria em 1966, aos 46 anos - o excesso de álcool, drogas e medicamentos, aliado à sua homossexualidade reprimida e ao acidente de carro que o havia desfigurado em 1956 o impedia de se concentrar e atuar como nos primeiros anos. Ele teve tantos problemas de saúde durante a fimagem de "Freud" que a Universal o processou pelos dias de atraso. No final, o filme foi um sucesso de bilheteria e ele conseguiu um acordo favorável.

Monty no início da carreira e depois do acidente

Monty Clift virou um astro já em seu segundo filme, "Rio Vermelho" ("Red River", 1948), onde atuou ao lado de John Wayne. Em 1951, protagoniza "Um Lugar ao Sol" ("A Place in the Sun"), com Elizabeth Taylor, sua grande amiga até o fim. Era o único ator de Hollywood que poderia rivalizar com Marlon Brando em matéria de talento e beleza, mas tinha uma personalidade frágil e era chegado numa birita e em medicamentos fortes. Em 1953, veio a consagração definitiva com o clássico "A Um Passo da Eternidade" ("From Here to Eternity"), ao lado de Burt Lancaster (há uma cena em que os dois estão bêbados - consta que Lancaster estava atuando, mas Monty tinha mesmo enchido a cara.
Em 1956, após sair de uma festa na casa de Liz Taylor, Monty enfia o seu Chevrolet numa árvore, ficando desfigurado (virou até música do The Clash, "The Right Profile": Monty's face is broken on a wheel / Is he alive? Can he still feel?). Liz correu para ajudá-lo e salvou sua vida, retirando dois dentes que ficaram entalados em sua garganta. Seu rosto foi reconstruído, mas, a partir daí, foi só ladeira abaixo. Durante as filmagens de "Os Desajustados", Marilyn Monroe, outra perturbada, disse: "Monty é a única pessoa que eu conheço que está pior do que eu".

Monty e Liz Taylor em "A Place in the Sun"
Com sua carreira em Hollywood em declínio, Monty foi morar em Nova York e tentar levar uma vida mais regrada. Em 1966, Liz ainda conseguiu que ele fosse escalado para atuar em "O Pecado de Todos Nós" ("Reflections of a Golden Eye"), mas Monty foi encontrado morto em seu apartamento por seu companheiro Lorenzo James no dia 23 de julho. Entrava para o panteão dos astros trágicos, ao lado de James Dean e Marilyn Monroe. Brando seria um quarto, mas insistiu em não morrer até 2004.

Uma última e pessoal nota sobre Freud: em 2001, eu fui convidado para participar de uma exposição coletiva na cidadezinha de Langenlois, na Áustria (na verdade uma maluquice num terreno baldio com um bando de artistas russos e um grupo punk local). Obviamente, na primeira oportunidade, fugi para Viena. Mas antes de visitar os museus e ver obras de Klimt, Schiele e cia, fiz questão de ir visitar o apartamento em que o Dr. Freud viveu e clinicou durante tantos anos, na Berggasse 19, no nono distrito de Viena. No local há alguns móveis que pertenceram a Freud, inclusive o famoso divã, mas o endereço foi transformado num pequeno museu para vender quinquilharias. Gostei de entrar naquele pequeno prédio, mas algo se perde nesses locais turísticos. De qualquer forma, comprei um isqueiro com uma frase de Freud e fui embora.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobre Thoreau e "Na Natureza Selvagem"



Semana passada, traduzi um episódio do programa "Sem Reservas", do chef norte-americano Anthony Bourdain, para o canal Discovery. Tony, como é chamado pelos amigos, viaja pelo mundo experimentando a culinária local, e nesse programa viajaria aos cafundós do Maine, terra de seu cinegrafista Zach. Antes da viagem, ele pergunta a Zach: "Então, o que nós vamos ver no Maine?". Zach dá uma risadinha e diz: "Você já leu Thoreau?", ao que Tony responde: "Não me venha com esse papo de voltar à natureza... Mas tudo bem, se você me garantir que não haverá sodomia não-consensual". O comentário ilustra bem o que pessoas "civilizadas" (como o novaiorquino de origem francesa Tony) pensam a respeito do interior dos EUA, principalmente daqueles estados de baixíssimo índice populacional e intocados pelo desenvolvimento industrial: caipiras sodomitas e potencialmente homicidas, por pura má índole e/ou consaguinidade, conforme a imagem indelével do clássico "Amargo Pesadelo" ("Deliverance", filme de 1972 de John Boorman), onde Jon Voight, Burt Reynolds e mais dois amigos da cidade resolvem descer um rio de canoa e se dão muito mal, não sem antes participarem do famosíssimo "duelo de banjos". Outra coisa que vem à mente de todos sobre os cafundós dos EUA e a tal vida selvagem é bem mais nobre e inspiradora: o pensamento de Henry David Thoreau (1817-1862).

Na verdade, voltei a pensar em Thoreau desde que vi o filme "Na Natureza Selvagem", de Sean Penn. Filme belíssimo, com o excelente Emile Hirsch no papel de Christopher Johnson McCandless (quem o viu em "Alpha Dog" e "Milk" sabe como ele é versátil, ao contrário de certos atores famosíssimos) e boa trilha de Eddie Vedder (se bem que alguém sugeriu que Woody Guthrie teria sido melhor). Trata-se de uma história real, contada no livro "Into the Wild", do jornalista e escritor Jon Krakauer. McCandless, após se formar, em 1990, colocou uma mochila nas costas e partiu numa viagem de dois anos, passando por alguns estados até chegar ao Alasca (péssima ideia) onde acabaria morrendo de inanição. O que o movia, mais do que aventura, era um ideal de volta à natureza e autoconhecimento, fortemente alimentado pela leitura de Jack London, Tolstói, Jack Kerouac e, mais marcadamente, Ralph Waldo Emerson e Thoreau.



Mas quem foi Thoreau? Antes de mais nada, um homem acima dos seus pares e à frente de seu tempo. Nasceu e viveu na cidadezinha de Concord, Massachusetts, formou-se professor, montou uma escola com o irmão mas acabou mesmo trabalhando na fábrica de lápis do pai. Sempre foi independente, visionário e rebelde. Por sorte, era vizinho do escritor, filósofo e poeta Ralph Waldo Emerson, criador do transcedentalismo, que já pregava mais espiritualismo e menos materialismo, mais intuição e menos racionalismo. Emerson era mais velho e virou tutor de Thoreau, a ponto de chamá-lo para viver em sua casa. Após um tempo, Emerson lhe deu permissão para construir um casebre num terreno seu, às margens do Lago Walden. A princípio, ele foi para o meio do mato com dois propósitos: um, escrever um livro sobre uma memorável viagem de barco que havia feito anos antes com o seu finado irmão John; outro era conduzir um curioso "experimento econômico" em que ele pretendia inverter o hábito ianque de trabalhar seis dias e folgar um: ele queria trabalhar um dia, para seu sustento, e folgar seis, para se dedicar à contemplação e aos seus escritos. Após ouvir do povo da cidade perguntas insistentes sobre o que ele fazia sozinho no mato, resolveu escrever um ensaio, que acabou virando o clássico "Walden, ou A Vida nos Bosques".

"Fui para os bosques porque  pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido."
Mas um dos aspectos mais peculiares, corajosos e louváveis de Thoreau era sua recusa em aceitar o controle do governo, principalmente de um governo escravocrata e colonizador (na época em guerra com o México, a que ele se opunha ferozmente) e sua pregação de uma espécie de anarquismo, que se acirrou durante a sua estada no casebre em Walden, de 1845 a 1847. Em 1846, por sua recusa em pagar um imposto, Thoreau foi preso (passou apenas uma noite na cadeia), o que o fez escrever seu famoso ensaio "A Desobediência Civil". Thomas Jefferson havia dito que "o melhor governo é o que menos governa". Um furioso Thoreau escreveu: "o melhor governo é o que não governa de forma alguma". Outra faceta nobre de Thoreau era sua defesa veemente do abolicionismo, chegando a ajudar escravos fugitivos a chegar ao Canadá. Ele escreveu: "Quando um sexto da população de um país que se elegeu como o refúgio da liberdade é composto de escravos, e quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, devo dizer que não é cedo demais para a rebelião e a revolução dos homens honestos. E esse dever é tão mais urgente pelo fato de que o país assaltado não é o nosso, e pior ainda, que o país invasor é o nosso".
Thoreau morreu de tuberculose, aos 45 de idade. Em seu enterro, Emerson disse: "O país não sabe o grande filho que perdeu. Sua alma foi criada para a mais nobre das sociedades; ele, em sua curta vida, exauriu todas as possibilidades deste mundo. Onde houver sabedoria, onde houver virtude, onde houver beleza, ele encontrará o seu lar".

O verdadeiro Christopher McCandless, em sua última foto

Eu considero Throreau profundamente inspirador, principalmente numa época em que o governo interfere em nossa vida de todas as formas, dizendo como devemos vivê-la; em que nossas liberdades individuais são constantemente ameaçadas e somos literalmente roubados por impostos acachapantes. Quem sabe não encontremos uma nova forma de anarquismo, ou qualquer outro movimento que nos tire da sonolência?
Obviamente não se trata de fugir para o mato e viver como um eremita (embora seja uma alternativa), pois, como anotou McCandless nas últimas páginas de seu diário: "A felicidade só é verdadeira quando compartilhada".


Para baixar o ensaio "A Desobediência Civil", clique aqui: http://www.megaupload.com/?d=BZPOF7A2
Para baixar o livro "Walden, ou A Vida nos Bosques", clique aqui: http://www.megaupload.com/?d=4L8NCHH8
Para descompactar os arquivos, uso o 7-Zip, que é ótimo e gratuito: http://download.cnet.com/7-Zip/3000-2250_4-10045185.html?tag=mncol;3