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domingo, 28 de agosto de 2011

Leminskiana nº 7

Cecily Brown, New Louboutin Pumps, óleo sobre tela, 2005

    ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
    aqueles que deixaram
que a mágoa nova
    virasse a chaga antiga

    ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
    e que a pedra só não voa
porque não quer
    não porque não tem asa




Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "Distraídos Venceremos" (Ed. Brasiliense, 4ª edição, 1991)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Leminskiana nº 6

Jodie Foster em "Taxi Driver" (Martin Scorsese, 1976)
      

     podem ficar com a realidade
esse baixo astral
    em que tudo entra pelo cano

    eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano





Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "Distraídos Venceremos" (Ed. Brasiliense, 4ª edição, 1991)

domingo, 14 de agosto de 2011

Leminskiana nº 5

Gerhard Richter, Clouds (Grey), óleo sobre tela, 150x200cm, 1969


    podia passar
a vida inteira assim
    olhando a lua
a boca cheia de luz
    e na cabeça nem sombra
da palavra glória




Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

sábado, 6 de agosto de 2011

Leminskiana nº 4

Gerhard Richter, Seascape, 290x290cm, óleo sobre tela, 1998


    um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
    como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
    será quase a felicidade



Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Leminskiana nº 3

René Magritte, L'Empire des Lumières, óleo sobre tela, 1953-54


"Ut pictura, poesis..."
(Horácio)



    Para que serve a pintura
a não ser quando apresenta
    precisamente a procura
daquilo que mais aparenta,
    quando ministra quarenta
enigmas vezes setenta?


Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

sábado, 16 de julho de 2011

Dance Me to the End of Love

Eu tinha um livro muito bonito com a letra desta música de Leonard Cohen e imagens de Henri Matisse. Não sei onde foi parar, após várias mudanças. Bem, recrio aqui um pouco dele:




Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love







Oh let me see your beauty 
    when the witnesses are gone
Let me feel you moving 

    like they do in Babylon
Show me slowly what I only 

    know the limits of
Dance me to the end of love






Dance me to the wedding now dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, 
we're both of us above  
   Dance me to the end of love   




Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

 



Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love






Clique abaixo para ouvir a canção na voz de Madeleine Peyroux:




Leonard Cohen, "Dance Me to the End of Love" ("Various Positions", Columbia Records, 1984);
Henri Matisse: 1 - "A Dança", óleo sobre tela, 260x391cm, 1910; 2, 3 - "Jazz", colagem com papel, 1947; 
4 - "A Conversação", óleo sobre tela, 177x217cm, 1909; 5 - "Nu Reclinado", lápis sobre papel, 1935.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leminskiana nº 2

     

     believe it or not
 this very if
     is everything you got

Gerhard Richter, I.G., óleo sobre tela, 72x102cm, 1993


Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

sábado, 2 de julho de 2011

Leminskiana nº 1

A partir de hoje vou postar alguns poemas, haikais e que tais de Paulo Leminski (1944-1989), brilhante escritor, poeta, compositor, tradutor poliglota e faixa-preta de judô. Este poema foi publicado no livro "La Vie En Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)


RUMO AO SUMO

   Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
   cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
   lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
   sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

   Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
   do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
   Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
   Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O amor segundo Maiakóvski

Nestes tempos negros, onde o amor é vítima de preconceitos mesquinhos de quem se diz guardião dos bons costumes de uma classe hipócrita, de quem se esconde por trás de supostos valores cristãos para exercer seu preconceito e sua intolerância, invoquemos o grande poeta russo Vladimir Maiakóvski, que, em outros tempos, se insurgiu contra a igualmente mesquinha mentalidade burguesa. Olhemos para cima, para o alto, lá onde ele está.

Vladimir Maiakóvski (1893-1930)

O Amor
(Vladimir Maiakóvski)

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

domingo, 12 de junho de 2011

Um poeminha sacana de e.e.cummings

Hoje é 12 de Junho. Você está sozinho(a), achando que o Dia dos Namorados é uma grande sacanagem? Em sua homenagem, publico um poema de e.e.cummings (aquele poeta norte-americano maravilhoso que escrevia tudo em minúsculas, inclusive o próprio nome). Porque melhor do que ficar sem amor é roubar o amor dos outros.

Eric Fischl, "Dog Days" (díptico), óleo sobre tela, 1983

may i feel said he - e.e.cummings

may i feel said he
(i'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she

(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she

(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)

may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she

may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she

but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she

(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she

(cccome?said he
ummm said she)
you're divine!said he
(you are Mine said she)