segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Thais Zumblick

Andy 4, óleo sobre tela, 120x120cm, 2004

Outra artista cuja obra conheci através de minha experiência com a Marina Kessler Gallery foi a pintora Thais Zumblick, com quem participei de algumas exposições coletivas. Nascida em Santa Catarina e radicada há 15 anos em Buenos Aires (após um período de cinco anos na Itália), Thais faz uma pintura realista virtuosa, realizando, segundo diz, "uma fusão entre o barroco e o pop".

Dani Dan, óleo sobre tela, 50x60cm, 2005
Guille 3, óleo sobre tela, 100x120cm, 2006

Uma coisa que sempre me intrigou nas pinturas de Thais foram os olhos negros, vazados, os rostos como se fossem máscaras. Entrevistei Thais para este post, e ela me eluciou de forma detalhada essa característica: "Quando eu era criança, os olhos vazios de Modigliani me fascinavam. Um fascínio misturado ao incômodo que às vezes temos. No final dos anos 80, fui estudar na Itália, onde fiquei cinco anos. Estava começando a pintar e, morando ao lado da Galeria Ufizzi, minha pintura começou a ser realista. Foram anos complicados, e comecei a esvaziar os olhos dos meus personagens. Jogar no limite do terror tranquilizava os meus medos".

Blitto 1, óleo sobre tela, 150x150cm, 2010
Vety 2, óleo sobre tela, 120x100cm, 2003

Continua Thais: "Em 1999, já em Buenos Aires, tive um ataque de pânico que me deixou mal por um ano. Foi quando uma amiga me emprestou o livro 'O Belo e o Sinistro', do filósofo espanhol Eugenio Trías, que escreveu: 'Não pode haver o efeito estético sem que o sinistro, de alguma maneira, esteja presente na obra artística'". Thais ainda cita duas frases seminais, de Rilke: "O belo é apenas o começo do terrível que ainda podemos suportar", e de Schelling: "O sinistro é aquilo que, devendo permanecer oculto, foi revelado". No livro, Trías faz uma classificação dos elementos sinistros a partir de Freud; entre eles, está a extirpação dos olhos.

Pablo Gore-Punk, óleo sobre tela, 160x110cm, 2011
Zoe 4, óleo sobre tela, 100x200cm, 2011

Ela diz: "Eu estou convencida de que não só é terapêutica essa relação paradoxal do extremamente belo (a decoração excessiva) com o terrível, como posso hipnotizar o espectador de um modo desconcertante". A pintura de Thais passou, nos últimos dois anos, a incorporar mais elementos de composição e a se aproximar do hiper-realismo, como pode ser visto nas duas obras acima. Sua técnica se aperfeiçoou, e os elementos "barrocos" e "pop" estão cada vez mais exacerbados. Mas os olhos continuam vazados, meio absortos, meio ausentes, à espera da anima.




Thais Zumblick


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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Hugo Tillman

Film Stills of the Mind (Ai Weiwei), 2007

Em 2004, enquanto eu expunha em Miami, conheci o fotógrafo inglês Hugo Tillman, que era representado pela mesma galeria que eu. Nascido em Londres, em 1973, de familia rica, e radicado em Nova York, Hugo sobrevivia fazendo fotografia de moda - a contragosto - enquanto desenvolvia seu trabalho artístico. Meses depois, ele me visitou em São Paulo com a namorada (eu ofereci o meu apartamento, mas ele preferiu ficar num hotel decrépito no centro), e eu o levei a alguns museus. Ele pareceu menos interessado na arte brasileira do que na paisagem humana à sua volta.

Upper Class (Mrs. William Cluet), 2006

Upper Class (Gilbert Kahn and John Noffot), 2006

Na época, ele desenvolvia uma série intitulada Upper Class. Valendo-se de sua intimidade com os ricos, fazia retratos supostamente lisonjeiros, quando na verdade criava uma caricatura grotesca dos stinking rich de sangue azul. Nos anos seguintes, perdemos o contato, e agora fazendo minhas pesquisas tive o prazer de descobrir que Hugo percorreu um longo caminho - não sem dor - e encontrou a sua melhor expressão, delineando ao mesmo tempo um panorama da efervescente arte contemporânea chinesa.

Film Stills of the Mind (Jiang Jie), 2007
Film Stills of the Mind (Yu Hong), 2007

Em 2005, ele foi diagnosticado com transtorno bipolar. Diz Hugo: "Eram pequenos desequilíbrios em meu cérebro, resultado de uma vida de altos e baixos dramáticos, onde eu muitas vezes me encontrava sem dinheiro, num hotel barato de um país estrangeiro, com uma ressaca terrível. O meu diagnóstico foi um alívio, para dizer o mínimo, e eu decidi criar um projeto baseado em minha experiência com a psicanálise. Como o meu trabalho lida muitas vezes com a infiltração em subculturas, eu decidi procurar por empatia numa cultura sobre a qual eu fosse completamente ignorante, num esforço de criar um laço cultural através da experiência comum e da compaixão".

Film Stills of the Mind (Zhang Xiaotao), 2007
Ele continua: "Eu escolhi o mundo da arte contemporânea chinesa. Então eu hipotequei a minha casa e fui para Pequim, sem saber como eu alcançaria o meu objetivo sem conhecer a cidade ou as pessoas. Logo eu percebi que o mundo das artes em Pequim era incrivelmente aberto, sem as amarras de veludo metafóricas que você encontra no círculo das artes nos Estados Unidos e na Europa. Então eu criei a série Film Stills of the Mind em colaboração com os principais artistas chineses atuais".

Film Stills of the Mind (Li Dafang), 2007

Durante dois anos, Hugo viveu entre Pequim, Xangai, Guangzhou e Hangzhou, entrevistando artistas como Ai Weiwei, preso em abril deste ano por suposta evasão fiscal - especula-se que o real motivo tenha sido sua aberta oposição ao Partido Comunista da China (PCCh). Weiwei ficou 81 dias preso e agora terá que pagar uma multa de US$ 2,3 milhões ao governo chinês. Esses depoimentos podem ser ouvidos no site do artista (link ao lado), na seção Maplap, em inglês, italiano ou chinês. Diz Hugo: "Este trabalho começa a dar forma a uma relação autônoma que está se desenvolvendo organicamente entre mim e minha geração e a China. Foi a primeira de, espero, muitas incursões à China, com os artistas chineses falando o que pensam".

Daydreams of Mine (The Old Man and...), 2008

Em 2008, Hugo passou seis dias em Havana, fazendo intevenções e fotografando, com apoio do governo cubano. São composições encenadas, algo surreais, seu "pequeno ponto de vista dessa cidade de contrastes". Ao mesmo tempo, termina o seu curso de Filosofia pela Universidade de Oxford. Entre os bairros mais ricos de Nova York e Londres e os mais depauperados de Pequim ou Havana, Hugo segue tentando compreender a dimensão humana do nosso mundo, para, em última instância, compreender a si mesmo.



Hugo Tillman

domingo, 6 de novembro de 2011

Lu Cong

A Song at Dusk, óleo sobre tela, 76x76cm, 2011

Lu Cong nasceu em Xangai em 1978 e migrou para os Estados Unidos aos 11 anos de idade. Após formar-se pela Universidade de Iowa em Biologia e Artes Plásticas, em 2000, ele decidiu seguir a carreira de pintor.

My Name is Tabitha, óleo sobre tela, 91x121cm, 2010
S/I, óleo sobre tela

Praticando um figurativismo realista com bastante originalidade, Lu Cong chamou a atenção de publicações de arte e galerias a partir de 2003. Suas cores são esmaecidas, a pincelada é virtuosa, e o que mais chama a nossa atenção são os olhos de seus retratados: vítreos, numa expressão entre o absorto e o enigmático.

Chicago, óleo sobre tela, 121x121cm, 2009
Avery's Calling, óleo sobre tela, 121x182cm, 2008

Diz Lu Cong: "Eu creio que o tamanho das pinturas e tudo o mais faz com que você seja atraído para os olhos. Muitos artistas evitam pintar o retratado olhando direto para o observador, mas é isso que eu gosto de fazer. (...) A cabeça, o rosto são essenciais para mim. Eu gosto de todos os detalhes, mas prefiro o rosto".

The Girl Who Finds You Here, óleo sobre tela, 91x91cm, 2009

Smythe #5, óleo sobre tela, 45x45cm, 2011

Lu Cong é mais um exemplo de pintor que se expressa na figuração - e, mais especificamente, no retrato - e logra fazê-lo com originalidade, escapando das armadilhas do academicismo ou da repetição. A pintura contemporânea aponta para muitas direções, com uma miríade de artistas brilhantes, e por vezes até ousa revisitar terrenos tradicionais, mas sempre buscando a própria voz.



Lu Cong


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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Ryan McGinley

India (Coyote), 2010

O fotógrafo Ryan McGinley nasceu em 1977 em Ramsey, New Jersey. Em 2003, aos 26 anos de idade, foi o artista mais jovem a ter uma exposição individual no prestigioso Whitney Museum of American Art, em Nova York, onde ele atualmente reside.

Alex & Frog, 2010
Laura (Thunderstorm), 2007

O mais novo de oito irmãos, McGinley mudou-se para o East Village em 1998, onde fez amizade com skatistas, grafiteiros, músicos e artistas, e cobriu as paredes de seu apartamento com Polaroids de todos que iam à sua casa. A partir daí, virou uma espécie de retratista da juventude, mas com um diferença crucial que o afastou da maioria dos artistas de sua geração: ele não aceitou a imagem que as revistas de moda faziam de seus pares - aquela dos junkies esquálidos e depressivos, talvez por excesso de tempo livre e falta de propósitos. O que McGinley via em seus amigos era o oposto.

Tracy, Jasper, Julia, 2010
Mari, Janelle, Jonas, 2010

Em 2000, McGinley fez sua primeira exposição, e em 2002 publicou um livro de fotos independente intitulado "The Kids Are Alright" (título de uma música do The Who), que chegou às mãos de Sylvia Wolf, curadora de fotografia do Whitney, que não tardou a colocar as fotos do jovem artista nas paredes do museu.

Somewhere Place, 2011
Jake (Fall Foliage), 2011

Diz Wolf: "As pessoas se apaixonam pelo trabalho de McGinley porque ele fala de libertação e hedonismo. Onde Nan Goldin e Larry Clark falavam de coisas dolorosas e que geravam ansiedade sobre os jovens e o que acontece quando eles tomam drogas e fazem sexo num submundo urbano descontrolado, McGinley já começou afirmando que 'a moçada está bem'; o que é fantástico, e sugere que uma subcultura alegre e desembaraçada estava surgindo - se você soubesse onde procurá-la".

Midnight Flight, 2011
Jonas (Barn Snow Disco), 2008

Segundo o crítico Jeffrey Kluger, da Time Magazine, "A fotografia congela um instante no tempo; as imagens de McGinley congelam uma fase da vida. A juventude e a beleza são tão passageiras quanto um clique de uma câmera - e por isso mesmo merecem ser preservadas".


Ryan McGinley



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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Yigal Ozeri

Jana and Jessica in the field, óleo sobre papel, 106x152cm, 2009

Yigal Ozeri nasceu em Israel em 1958 e mora e trabalha há 20 anos em Nova York. Fazendo uma pintura hiper-realista, romântica, fortemente influenciada pelos pré-rafaelitas, mas, segundo ele, celebrando uma utopia atual, ele alcançou a fama por volta de 2005, e hoje goza de enorme prestígio no circuito nova-iorquino.

Jana in the field, óleo sobre papel, 152x106cm, 2009
Megan in the park, óleo sobre papel, 106x152cm, 2009

O trabalho de Ozeri passa por várias etapas. Na primeira, ele fotografa suas modelos - não profissionais, ele enfatiza. Por vezes, ele manipula a foto no Photoshop, melhorando contrates e cores. A seguir, ele imprime a imagem e a copia num papel, finalmente fazendo a pintura a óleo. Nesta última fase, por se tratar de pinturas hiper-realistas com muitas detalhes, ele usa dez assistentes, embora as partes mais difíceis - como rosto e cabelo -  ele mesmo pinte.

Priscilla in moss, óleo sobre papel, 152x106cm, 2008

Jessica in the park, óleo sobre papel, 106x152cm, 2009

Sobre o uso de assistentes, ele diz: "São assistentes como os renascentistas usavam. Van Eyck, Velásquez, Leonardo, Rubens - todos eles usavam assistentes. Eles eram como diretores. Vá ao Metropolitam Museum; o melhor quadro lá é aquele Van Eyck onde ele usou 25 assistentes. E é o melhor porque todos eles deram o seu melhor".

Jessica with vines, óleo sobre papel, 152x106cm, 2009

Jana and Jessica in the field, óleo sobre papel, 152x106cm, 2009

Sobre as acusações de seus detratores, que vêm em suas pinturas um romantismo antiquado, Ozeri disse: "Eu não tenho medo da palavra romantismo, e é isso que eu trago de volta à pintura. O mundo da arte é cheio de violência, de morte, de coisas repulsivas, e eu trago o romantismo de volta. Mostrar pessoas reais que moram na natureza, sem malícia, pessoas que não precisam de nada além de amor, isso é mais radical do que ir tirar fotos no Iraque."


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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Robert Mapplethorpe (1946-1989)

Autorretrato, 1985

Em postagem de 14 de julho último, sobre Fotografia Erótica, mencionei a polêmica gerada em 1989 pela exposição The Perfect Moment, do fotógrafo nova-iorquino Robert Mapplethorpe, quando congressistas norte-americanos criticaram o uso de dinheiro público para financiar uma arte que continha imagens pornográficas e sadomasoquistas. Essa foi a tônica da vida e do trabalho de Mappethorpe, um dos mais importantes fotógrafos americanos do século passado.

Lisa Lyon, 1981
Charles Bowman, Torso, 1980

Mapplethorpe, de família católica de origem inglesa e irlandesa, nasceu no Queens, em Nova York. Estudou Artes Plásticas no Pratt Institute do Brooklyn, com especialização em Artes Gráficas, mas não chegou a terminar o curso, abandonando a escola em 1969. A príncipio, ele criava trabalhos em técnica mista, em colagens que incluíam fotos retiradas de livros e revistas. Daí veio a decisão de comprar uma câmera Polaroid, em 1970, e fazer suas próprias fotos. Segundo ele, dessa forma ele se sentia "mais honesto".

Patti Smith, 1976
Deborah Harry, 1978

Em 1967, ele inicia um relacionamento de sete anos com a cantora Patti Smith, e após assumir-se gay, eles mantêm-se amigos até sua morte, em 1989. A Companhia das Letras lançou recentemente no Brasil o livro "Só Garotos" ("Just Kids") de Smith, onde ela relembra o seu relacionamento com o fotógrafo, e pelo qual ela ganhou o National Book Awards em 2010.

Calla Lily, 19787
Lisa with Scorpion, 1980

Em 1975, Mapplethorpe adquire uma câmera Hasselblad de médio formato, e começa a retratar o seu círculo de amigos: artistas, músicos, socialites, atores pornôs e membros de clubes sadomasoquistas. Ele também faz trabalhos comerciais, como capas de álbuns de Patti Smith e do grupo Television e ensaios para a revista Interview, criada por Andy Warhol.

Ken Moody and Robert Sherman, 1984

No final dos anos 70, ele se interessa cada vez mais pelo submundo do S&M, produzindo as tais imagens que chocaram os congressistas e parte do público americano. Disse Mapplethorpe: "Eu não gosto muito da palavra 'chocante'. Eu procuro o inesperado, eu procuro coisas que nunca vi. Eu me vi numa posição de tirar essas fotos, e me senti obrigado a fazê-lo".

Autorretrato, 1975

Durante os anos 80, sua reputação cresceu, com exposições em importantes museus ao redor do mundo. Dono de um estilo rigoroso, ele produziu séries que incluiram retratos de celebridades, nus masculinos e femininos, estudos de estátuas e flores, além de inúmeros autorretratos. Em 1986, foi diagnosticado com a AIDS. Em 1988, ganhou uma grande retrospectiva no Whitney Museum, vindo a morrer no ano seguinte.


Robert e Patti em 1969, em foto de Norman Seeff


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