quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Asgar/Gabriel

Keine Sorge uns geths gut, óleo sobre tela, 220x450cm, 2007

No dia 2 de setembro último eu escrevi sobre a dupla Muntean & Rosenblum, e disse que conhecia poucas duplas de criadores nas artes plásticas (Gilbert & George, por exemplo). Mas eis que descubro outra dupla residente na Áustria, Asgar/Gabriel, que aparentemente pegou a ideia dos colegas e a levou ao extremo: mais cores, mais realismo, mais exagero, mas tendo como tema também uma visão crítica da adolescência.

I used to live in Arcadia, óleo sobre tela, 220x250cm, 2008


Daryoush Asgar nasceu em 1975 em Teerã. Durante a guerra Irã-Iraque, sua família migrou para a Áustria. De 1996 a 2000, ele estudou na Academia de Artes Plásticas de Viena. Exímio pintor realista, exibiu seus trabalhos em vários países, e em 2002 ganhou o Prêmio Strabag na Áustria.

Utopia, óleo sobre tela, 260x450cm, 2009

Elizabeth Gabriel nasceu em 1974 em Viena. De 1988 a 90, estudou piano na Academia de Música e Artes Performáticas. De 1994 a 2000, estudou Filosofia e Literatura na Universidade de Viena. Sua tese foi sobre a Teoria Estética de Adorno. Após se formar, trabalhou no teatro em Viena, Berlim e Bern, na Suíça. Eis aí outra similaridade com os colegas: Markus Muntean é austríaco e Adi Rosenblum é israelense.

Do you want to escape?, óleo sobre tela, 220x270cm, 2008

A dupla trabalha com o que chama de "historização do momento", com referências a pinturas barrocas e do Século 19 (que evoluiu do Romantismo para o Realismo), retratando uma geração que procura desesperadamente por novos mitos, "entre o êxtase e o pesadelo".

The dark is my delight, óleo sobre tela, 220x450cm, 2007
Die Leute schlafen schon, óleo sobre tela, 220x700cm, 2008

O processo criativo da dulpa começa com fotografias escolhidas aos montes na mídia impressa e na Internet, fotos que são compiladas, rearranjadas e trabalhadas digitalmente, antes de serem finalmente pintadas sobre a tela - geralmente de dimensões monumentais, algumas passando de sete metros de largura.

Kunst is Anarchie, óleo sobre tela, 300x760cm, 2011


Uma curiosidade: Asgar e Gabriel começaram sua parceria na década de 90, tocando numa banda de rock de garagem. Em 2002, eles se mudaram para Berlim, onde começaram a pintar, ficando lá durante três anos. Em 2005, mudaram-se para Viena, onde vivem e trabalham até hoje.

In den hohen Wellen unserer Abenteuer, óleo sobre tela, 270x380, 2010



Asgar/Gabriel


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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Vincent Desiderio

Boating Party, óleo sobre papel, 152x121cm, 2010

Vincent Desiderio nasceu em 1955 na Filadélfia, no estado da Pensilvânia, e segue a longa tradição dos pintores realistas norte-americanos. Formou-se em Artes Plásticas e História da Arte pelo Haverford College, depois estudando durante um ano na Accademia di Belle Arti, em Florença, na Itália.

Sink, óleo sobre papel, 121x162cm, 2010
Aftermath, óleo sobre papel, 20x25cm, 2009

Seus temas muitas vezes são estudos clássicos, onde parece apenas exibir técnica, mas por vezes o artista a alia a uma visão mais pessoal que gera obras mais interessante - em particular, uma certa obsessão com a morte.

My Father Fallen, óleo sobre papel, 33x40cm, 2009
Pigs, óleo sobre tela, 170x119cm, 2006

Desiderio participou das primeiras exposições coletivas em 1979, e sua última individual foi em 2011 na Marlborough Gallery, em Nova York, que o representa.

Mourning and Fecundity, óleo sobre tela, 246x375cm, 2007

Hanging Man, óleo sobre tela, 177x185cm, 2006


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domingo, 16 de outubro de 2011

James Benjamin Franklin

The Attempt, acrílica e resina sobre tela, 40x45cm, 2006

O que dizer de um pintor que lista entre suas influências Richard Diebenkorn e Woody Allen? O resultado só poderia ser alguém como James Benjamin Franklin, com suas pinturas desconcertantes de tão diretas, tão cruas, tão coloridas, tão estranhas e tão familiares.

Ways and Means, acrílica e resina sobre tela, 107x83cm, 2009
The Appointment, acrílica e resina sobre tela, 30x33cm, 2004

Pouco sei sobre Franklin; apenas que ele nasceu em Tacoma, no estado de Washington, e decidiu virar artistas após uma visita escolar aos museus de Nova York - onde vive hoje, em Brooklyn. Suas imagens vez ou outra ilustram matérias em revistas americanas, e ele começou a expor em galerias pelo país em 2004. Sua última exposição individual foi em 2010, na galeria KRETS, em Malmö, na Suécia.

Prayer, acrílica e resina sobre tela, 38x35cm, 2006
Revealing What Remains, acrílica e resina sobre tela, 83x107cm, 2009

Franklin faz pinturas em tintas acrílica e vinílica e resina, em pequenos e médios formatos, com muitas áreas chapas em cores primárias e secundárias, e uma liberdade na representação de pessoas e ambientes que lembra o desprendimento de desenhos infantis. Mas não se enganem: tudo é concebido para transmitir exatamente esse sentimento de que falei acima -  diante de suas imagens, temos a incômoda sensação de nos percebermos em atitudes pequenas e mesquinhas, ou em nosso abandono em face do amor. É como se o artista nos dissesse: não merecemos a dramaticidade e a elegância de um Velásquez - nossa vida é pequena demais para isso.

The Fall, vinílica e resina em MDF, 15x12cm, 2006
Lovers, acrílica e resina sobre madeira, 17x12cm, 2003

Suas situações me lembram o trabalho de Mike Judge, o criador de Beavis & Butt-head e King of the Hill, com sua crítica ácida e bem-humorada à nossa sociedade. Se Mike Judge tivesse decidido pintar quadros ao invés de criar desenhos animados, talvez fizesse algo parecido com o trabalho de James Benjamin Franklin. Diante da forma como Franklin nos retrata, até o romantismo se revela algo ridículo.

Drifting, vinílica e resina sobre tela, 66x76cm, 2007
Half Off, acrílica e resina sobre tela, 40x45cm, 2006


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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Gregory Crewdson


Veja a foto acima. Ela parece um still de um filme - nela, vemos um homem (um personagem?) à chuva, a porta do carro entreaberta, a sua maleta no chão. Podemos apenas imaginar o que o levou a quedar-se dessa forma, no meio da rua. O carro não foi estacionado cuidadosamente - antes foi abandonado, enviesado, próximo ao meio-fio. Nada sabemos sobre esse homem, mas podemos imaginar muitas coisas, e é exatamente isso que deseja o autor da foto, o norte-americano Gregory Crewdson.


Crewdson nasceu 1962 em Nova York, onde continua a morar e trabalhar. Quando ele tinha dez anos de idade, seu pai, que era psicanalista, o levou para ver uma exposição de Diane Arbus no MoMA, experiência que mais tarde o levaria a abraçar a fotografia - não sem antes tocar na banda punk nova-iorquina The Speedies, ainda adolescente.


Suas fotografias exigem uma produção digna de cinema, com dezenas de pessoas envolvidas e, obviamente, orçamentos altíssimos. A influência do cinema é confessa, e ele cita filmes de Alfred Hitchcock, David Lynch e Steven Spielberg; na pintura, não há como negar a marca de Edward Hopper - embora acrescido de dramaticidade.



Apesar disso, Crewdson reconhece o limite da fotografia em termos de narrativa - pois se trata de "uma imagem congelada no tempo, sem antes nem depois". Segundo o texto de apresentação no site de sua galeria, a White Cube, o talento de Crewdson está em transformar essa limitação numa força única.




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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Rodrigo Cunha

Autorretrato, acrílica sobre tela, s/d

Desde o final da década de 90, eu acompanho a obra do pintor Rodrigo Cunha, desde seus trabalhos expostos nas Anuais da FAAP (em 1998 e 1999) e suas individuais na Galeria Thomas Cohn (em 2000, 2001 e 2003). Trata-se de um pintor estupendo, de temperamento quixotesco, totalmente comprometido com a pintura - em seus moldes mais clássicos.

Sem título, acrílica sobre tela, s/d
Sem título, acrílica sobre tela, s/d

Nascido em Niterói, RJ, em 1976, Rodrigo cedo começou a desenhar. Ao ganhar do pai um estojo de pintura, descobriu uma paixão e algo que desejava fazer pelo resto da vida. Radicado em São Paulo desde 1993, ele foi reconhecido tão logo terminou seus estudos, mas sempre foi, de certa forma, um solitário. Numa época em que a pintura estava em baixa e os artistas abraçavam os novos suportes e as novas tecnologias com voracidade, Rodrigo era considerado, por muitos de seus pares, um purista. A recíproca era verdadeira - Rodrigo sempre desprezou as novidades da arte contemporânea.

Sem título, acrílica sobre tela, s/d
Jogadores de Carta, acrílica sobre tela, 161x140cm, s/d

Sua integridade - ou seu radicalismo, segundo alguns - se manifesta até mesmo no âmbito da pintura: Rodrigo só acredita em pintura feita a partir da observação da realidade, com modelos vivos. Aí já temos excluída boa parte da pintura contemporânea, em grande parte dependente da fotografia, por escolha ou por praticidade. De fato, com pintor, posso atestar a dificuldade e o desafio que é pintar a partir de modelos vivos. Mas Rodrigo não está sozinho, absolutamente, e posso citar dois grande artistas contemporâneos que estão entre os meus favoritos e só pintam dessa forma: o recém-falecido Lucian Freud e o chinês Liu Xiaodong.

Sem título, acrílica sobre tela s/d
Sem título, acrílica sobre tela, s/d

Em 2009, Rodrigo Cunha ganhou o pretigioso Prêmio Fundação Bunge, ano em que fez também uma exposição individual na Galeria Baró Cruz. Atualmente ele é representado pela Galeria de Arte André, onde participou de mostra coletiva este ano.

Autorretrato, acrílica sobre tela, s/d

Entre seus ídolos maiores, Rodrigo lista Rembrandt e Van Gogh. Sobre o primeiro, ele comenta: "A pintura é a minha religião. Eu acredito no Belo. Quando eu vejo um Rembrandt, eu penso: isso é belo. É belo de verdade. Eu me emociono". De minha parte, sempre que eu me vi diante de uma pintura de Rodrigo Cunha, senti algo parecido.

Rodrigo Cunha

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Francis Bacon (1909-1992)

Three Studies for a Crucifixion, tríptico - painel esquerdo, ost, 198x144cm (cada), 1962
"Eu não me vejo exatamente como um pintor, mas como um intermediário para o acidente e o acaso" - assim definia-se um dos artistas mais geniais do século XX, e um dos meus pintores prediletos: Francis Bacon. Assim como Samuel Beckett nos propôs abraçar o caos e o absurdo, por eles serem palpáveis, Bacon construiu toda a sua obra sobre a impossibilidade de harmonia e de amor, sobre a finitude e a mortalidade da carne, sobre a crueldade humana, sobre a inexistência de Deus e, em última instância, sobre a violência.

Self-Portrait, ost, 198x147cm, 1973
Francis Bacon nasceu em 1909 em Dublin, Irlanda, homônimo do filósofo e estadista elizabetano (de quem, segundo sua mãe, era parente distante). Seus pais haviam mudado recentemente da Inglaterra, onde seu pai servira o exército, chegando a capitão, para que ele tentasse a vida como criador e treinador de cavalos. Homem rígido e agressivo, não aceitava os modos afeminados do filho, tampouco a sua asma, que o impedia de se aproximar de cães e cavalos.

Two Figures, ost, 152x116cm, 1953
Aos 17 anos, Francis foi expulso de casa, após seu pai pegá-lo olhando-se no espelho vestindo as roupas íntimas da mãe. Segundo o pintor, ele sentia ao mesmo tempo repulsa e atração pelo pai, mitigada com encontros furtivos com os empregados do estábulo. Foi viver em Londres, sozinho, sobrevivendo com uma mesada enviada pela mãe. Para completar a renda, segundo ele próprio, fazia pequenos furtos e se prostituía com homens mais velhos.

Triptych in Memory of George Dyer, ost, 198x147cm (cada), 1971
Em andanças por Berlim e Paris, Bacon teve duas experiências que o marcariam como artista: ele assistiu a "Um Cão Andaluz", filme de 1929 de Luis Buñuel, sobre o qual mais tarde comentou: "Não sei como os filmes de Buñuel me afetaram diretamente, mas eles certamente me afetaram com relação a coisas visuais, na acuidade das imagens que você produz". A outra experiência foi a visita a uma exposição de Pablo Picasso - que o levou a querer pintar.

Study of George Dyer, ost, 1969
De volta a Londres, Bacon tornou-se decorador de interiores e designer de móveis, fazendo amizade com o pintor pós-cubista australiano Roy de Maistre, que o incentivou a seguir a carreira de pintor. Na mesma época, ele começou um relacionamento - que duraria 15 anos - com Eric Hall, homem casado, pai de dois filhos e membro respeitável da sociedade londrina, que o sustentou enquanto ele não pôde viver de seu trabalho como decorador nem de suas pinturas.

Three Studies for Figures at the Base of a Crucifixion, tríptico, ost, 198x147cm (cada), segunda versão, c. 1944
Já na década de 30, surgiu um tema que acompanharia Bacon por toda a vida: a Crucificação, muitas vezes pintada em trípticos - composição de três painéis típica da arte medieval e renascentista, onde o painel central geralmente trazia a figura de Cristo ou da Virgem Maria, e os laterais, figuras de santos. Sobre o tema, Bacon disse: "Para as pessoas religiosas, a Crucificação tem um significado, mas, para mim, ela tem outro: ela apenas representa a forma com os homens se tratam".

Study after Velázquez's Portrait of Pope Innocent X, ost, 153x118cm, 1953
Seu estilo de pintura já estava presente nos dois elementos formais que são a essência de sua obra: a deformidade da carne e esquematismo na composição dos ambientes, com grandes áreas chapadas, pintadas com cores fortes . Bacon sempre foi absolutamente sincero e corajoso na insistência de que sua arte derivava de um acidente, não de seu dominio sobre o meio. Ele jamais pintava modelos vivos, e usava quaisquer fotografias que tivesse em mãos como ponto de partida para a representação da figura humana. Seus estudos do retrato do Papa Inocêncio X de Diego Velázquez foram feitos a partir de uma foto. Também usava com frequência os experimentos fotográficos de Eadweard Muybridge.

Paralytic Child Walking on all Fours (from Muybridge), ost, 1961
As décadas de 40 e 50 foram prolíficas, e em 1962 Francis Bacon já ganharia uma restrospectiva na Tate Gallery, em Londres. Em 1963, ele conhece o homem que seria seu companheiro inseparável e tema de muitos quadros: o londrino George Dyer, homem elegante e másculo, com um passado de pequenos delitos, mas que no fundo possuía uma personalidade insegura e depressiva. Bacon tinha 54 anos; Dyer, 29. Bacon gostava de dizer que conhecera Dyer quando este tentou arrombar o seu ateliê.

Study for Head of George Dyer, ost, 35x30cm, 1867
O relacionamento conturbado com Dyer durou até outubro de 1971, quando Bacon teria uma grande exposição individual no Grand Palais de Paris, honra antes concedida apenas a Picasso. Dois dias antes da abertura, em 25 de outubro, Dyer foi encontrado morto no quarto de hotel, vítima de uma overdose de álcool e barbitúricos. Bacon compareceu à abertura como se nada tivesse acontecido. Nos anos seguintes, porém, ele dedicaria várias obras ao ex-amante.

Studies from the Human Body, tríptico - painel central, ost, 198x147cm (cada), 1970
Entre 1962 e 1986, Bacon concedeu nove longas entrevistas ao famoso crítico inglês David Sylvester, que foram reunidas no livro "Entrevistas com Francis Bacon: a Brutalidade dos Fatos" (publicado no Brasil pela editora Cosac Naify, em 1998). Nelas, Bacon discorre sobre seus temas e seu processo de trabalho. Entre outras coisas, diz preferir pintar de memória ou a partir de fotos, jamais tendo o modelo à sua frente, para que a pessoa não testemunhasse a "ofensa" que ele fazia à sua imagem - pois era dessa forma que muitos retratados se sentiam. Sobre a violência de suas imagens, ele afirmou: "Obra de arte nenhuma pode ser mais violenta do que a vida".

Trptych May-June, ost, 198x147cm (cada), 1973
Em meados dos anos 70, o artista britânico conheceu outro jovem londrino, que iria acompanhá-lo durante o resto de sua vida: John Edwards, único herdeiro de seu espólio. Durante toda a década de 80, Bacon produziu, expôs e solidificou sua reputação como um dos maiores pintores vivos - senão o maior. No entanto, sua idade avançada e a asma já o debilitavam, e ele teve um rim canceroso extirpado em 1989. Em abril de 1992, ele fez uma viagem a Madri, para se encontrar com um jovem espanhol com quem ele se relacionava havia alguns anos. Ao chegar, caiu doente e foi internado numa clínica, vindo a morrer de ataque cardíaco em 28 de abril.

Francis Bacon em seu ateliê em Londres
Em um de seus depoimentos a David Sylvester, Francis Bacon afirmou, a respeito da constante busca - e da constante frustação do artista: "Como você pode ficar satisfeito, se tudo lhe escapa? Mesmo quando você está apaixonado por alguém, tudo lhe escapa; você quer ficar mais próximo àquela pessoa, mas como você pode abrir a sua carne e se unir a ela? É uma impossibilidade. O mesmo acontece com a arte - ela é como um longo caso com objetos, com imagens, com sensações e com as paixões".



Para acessar o site oficial do Espólio de Francis Bacon, clique no link ao lado.
Para assistir a um documentário sobre ele (sem tradução, em nove partes), clique abaixo: