Zhang Xiaogang, Bloodline: The Big Family 2, óleo sobre tela, 180x230cm, 1995
Uma das sensações da 22ª Bienal de São Paulo, em 1994, foi Zhang Xiaogang (Kunming, 1958) sinalizando que havia uma arte vigorosa sendo produzida na China desde a década anterior, principalmente a pintura, o que se confirmou nos anos seguintes, com diversas exposições pelo Ocidente de artistas de sua geração. E a "febre" chinesa ainda não arrefeceu: em janeiro a março deste ano, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo apresentou a exposição "Comunidade de Gostos: Arte Contemporânea Chinesa desde 2000".
Zhang Xiaogang, Bloodline: The Big Family 3, óleo sobre tela, 180x230cm, 1995
A série "Bloodline" de Xiaogang, feita durante a década de 90, mostra famílias chinesas em poses rígidas, em retratos de estúdio "oficiais", vestindo os ternos e túnicas que se tornariam o uniforme chinês durante a Revolução Cultural da Era Mao Tse-tung (1949-1976).
Wei Dong, Flag, acrílica sobre tela, 61x168cm, 2006
A herança maoísta está gravada no trabalho nos novos artistas chineses como uma cicatriz. Mesmo aqueles que eram criança durante os últimos momentos do regime foram profundamente influenciados por ele, como o brilhante pintor Wei Dong, nascido em 1968 em Chifeng, na Mongólia. Aos dois anos, sua família se mudou para Wuhan, na China, onde mais tarde ele estudaria Arte em Beijing. Seus quadros mostram cenas da China maoísta em composições clássicas ocidentais, repletas de símbolos. Uma curiosidade é sua preferência pela tinta acrílica, menos maleável, à tinta óleo.
Wei Dong, Lamb, acrílica sobre tela, 137x162cm, 2009
Uma nova geração, porém, optou por registrar cenas mais banais da China pós abertura econômica, como Liu Xiaodong (Liaoning, 1963), que se alia à chamada "Sexta Geração" do cinema chinês atual, que pratica o que já foi intitulado de "realismo cínico".
Liu Xiaodong, Bathers in the Sun, óleo sobre tela, s/t, 1990
Tantos nos filmes dessa geração de cineastas quanto nos quadros de Liu Xiaodong não há resquícios da austeridade da era comunista, mas pessoas comuns, em cenas banais, muitas vezes em paisagens que nada enaltecem o país - como no quadro abaixo, uma crítica à construção da barragem da hidrelétrica de Três Gargantas (a maior do mundo), que deslocou inúmeras comunidades à margem do Rio Yang-tse.
Liu Xiaodong, Three Gorges: Newly Displaced Population, óleo sobre tela, 300x1000cm, 2004
He Sen nasceu na província de Yunnan, em 1968, e possui uma grande série de pinturas onde se vê garotas de lingerie, contra um fundo cinza, fumando ou bebendo - talvez uma crítica ao período de transição da sociedade chinesa, agora perdida e abanonada ao consumismo e aos vícios do capitalismo?
He Sen, Pretty Dudu and Pretty Toy, óleo sobre tela, 199x248, 2008
He Sen, What Do You Want To Talk, óleo sobre tela 199x248cm, 2008
Um dos artistas chineses mais curiosos e famosos no momento é Yue Minjun (Heilongjiang, 1962). Suas pinturas, gravuras e esculturas mostram uma figura apenas: um clone do artista de boca escancarada, uma fileira interminável de dentes, os olhos fechados e o rosto ruborizado numa gargalhada cujo motivo já rendeu diversas teorias - jamais confirmadas pelo artista.
Yue Minjun, s/título, óleo sobre tela, 220x200cm, 2005
Seria uma gargalhada de vitória, após a abertura exigida à força nos protestos da Praça da Paz Celestial, em 1989? Seria uma risada cínica diante de um mundo globalizado e cada vez mais dependente da economia chinesa? Ou estaria ele, dolorosamente, rindo de si próprio? O teórico Li Xianting a descreve como "uma resposta autoirônica ao vácuo espiritual e à insensatez da China dos dias de hoje".
Yue Minjun, Between Men and Animal, óleo sobre tela, 280x400cm, 2005
Fang Lijun nasceu em 1963, na província de Hebei. Também egresso da geração do "realismo cínico", seu trabalho possui parentesco com o de Yue Minjun, com figuras por vezes cômicas, por vezes grotescas, num sentimento de não-adequação aos novos tempos.
Fang Lijun, Series 1 #3, óleo sobre tela, s/t, 1991
Assim como Minjun, Lijun pratica uma pintura realista bastante rigorosa, mas contraposta a elementos pop e uma estética descaradamente kitsch.
Fang Lijun, 1993.1, acrílica sobre tela, 180x230cm, 1993
Eu me limitei a seis pintores (além de Ling Jian, publicado no post de 4 de agosto), mas há uma série de artistas chineses fazendo trabalhos brilhantes em fotografia, vídeo e outros suportes. Dividos entre um passado de opressão, que deixou cicatrizes na alma do país e moldou o seu caráter, e um futuro promissor porém incerto, esses artistas produzem uma obra instigante e cheia de significados, ao mesmo tempo mantendo o rigor técnico e uma riqueza visual que não são de agora, mas que pertencem à China milenar.
"O comunismo não é amor. O comunismo é o martelo com o qual nós esmagamos o inimigo." A frase de Mao Tse-tung sempre ecoou na cabeça de Ling Jian, nascido em 1963 na província de Shandong, na China. Quando criança, ele viveu os últimos momentos da Revolução Cultural, que chegaria ao fim com a morte de Mao em 1976. Após formar-se em 1986 pela Escola de Arte da Universidade de Qinghua, em Beijing, o artista mudou-se para Viena, depois Hamburgo, vindo mais tarde a dividir residência entre Berlim e Beijing.
Palace Servant nº 8, óleo sobre tela, 190cm diâmetro, 2007
Grew Up Under Sunshine nº2, óleo sobre tela, 180x250cm, 2008
Mesmo longe de seu país, seus temas continuaram intrinsecamente chineses, nas marcas indeléveis deixadas pela vida sob o regime comunista. Conhecido pelos seus enormes retratos de mulheres, Ling Jan na verdade faz um manifesto político e social - subverte o papel da mulher sob o comunismo chinês, aquele da "irmã" combatente mas abnegada e sujeita à mão pesada do Partido, conferindo-lhe sensualidade e, através dela, o individualismo. Alguém pode enxergar aí o outro lado da moeda - a mulher chinesa como símbolo e fetiche sexuais. Ou talvez, numa análise mais profunda, Ling Jan faça o retrato mais instigante da China atual, ainda dividida entre o passado e o futuro, em busca de sua própria identidade no mundo contemporâneo.
Angel Party nº 2, óleo sobre tela, 250x180cm, 2009
Don't Cry For Me nº 2, óleo sobre tela, 180x150cm, 2007
Outro aspecto característico de sua obra é o humor, com suas mulheres nuas, de quepes militares, às vezes empunhando armas. Os títulos irônicos das pinturas e das séries fazem alusão direta à Revolução Chinesa: "Não Chore Por Mim", "Irmãs Comunistas", "Princesa do Exército", "Não Ame a Beleza, Ame o Poder das Armas" - esta remetendo à famosa frase de Mao. Ling Jian é apenas um entre vários pintores chineses brilhantes, que fizeram a sua própria revolução na arte contemporânea. Em breve escreverei sobre eles.
Propaganda Party, óleo sobre tela, 190cm diâmetro, 2008
Para ver mais obras, acesse o site do artista, na lista de links ao lado.
Andrea Kowch, The Feast, acrílica sobre tela, 152x213cm, 2010
Recentemente descobri um blog muito interessante chamado Women Painting Women, que, como o nome já diz, traz um apanhado de pintoras figurativas que, entre outras coisas, pintam retratos de mulheres. A lista é extensa, e é preciso garimpar artistas talentosas entre as muitas que fazem uma pintura acadêmica apenas passável. Por acadêmico, para quem não sabe, entende-se "convencional": retratos clássicos, em poses previsíveis, uma preocupação com o realismo que parece engessar qualquer criatividade, nenhuma originalidade em nenhum aspecto da obra. Mas o trabalho de garimpo vale a pena, pois entre elas também há talentos inegáveis, como a sensualidade pop e irônica de Suzy Smith, que ecoa Mel Ramos:
Suzy Smith, Dessert, óleo sobre tela, 60x46cm, s/d
Outras fazem uma pintura hiper-realista muito interessante, como Cynthia Westwood, Mary Handerson e Jan Nelson:
Cynthia Westwood, Sitting in Bath, óleo sobre tela, 121x81cm, 2007
Mary Henderson, October, óleo sobre tela, 20x20cm, 2003
Jan Nelson, Gracie, óleo sobre tela, 76x58cm, 2011
Há também composições interessantes de Jennifer Presant, Anelicia Hannah e Carle Shi:
Jennifer Presant, Still Moving, óleo sobre tela, 59x106cm, s/d
Carle Shi, Thoughts, óleo sobre tela, 127x167cm, s/d
Anelicia Hannah, Gestation, óleo sobre tela, 121x121cm, 2010
Vale a pena passar algumas horas navegando pelo blog - são muitas pintoras, e clicando no nome delas, sob a imagem, você é direcionado para o site da artista, onde há uma galeria com suas obras.
Victoria Selbach, Nicole At Mille Fleurs, óleo sobre tela, 91x152cm, s/d
Erin Cone, Charade, acrílica sobre tela, 91x121cm, 2011
Jane Cruickshank, Solitary III, óleo sobre tela, 76x106cm, s/d
Para acessar o blog, clique aqui no link na barra ao lado.
Acabo de voltar da exposição do artista alemão Gerhard Richter na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Para resumir numa palavra: decepcionante. Segundo o release da própria instituição, são "27 pinturas escolhidas pelo próprio artista, desde os trabalhos de fotografia-pintura dos anos 1960 até as pinturas abstratas dos anos 1980 e 1990". Na verdade, desse já pequeno lote (de um artista que possui uma obra tão extensa), apenas 12 são pinturas originais, dessa última fase, a mais fraca do artista: um mero exercício de texturas e tonalidades, para quem não teme aceitar que mesmo um artista brilhante possui fases redundantes (as primeira séries abstratas são da década de 60). O restante das "imagens" são meras reproduções fotográficas, inclusive de sua famosa pintura "Betty", de 1988, vista acima. Eu sou da opinião que, se for para ver reproduções fotográficas de pinturas, eu prefiro vê-las em casa, em meu monitor widescreen de alta definição - mesmo que o próprio Richter às vezes reverta o processo de pintar a partir de uma fotografia, depois fotografando a pintura. Nada substitui a experiência de estar a um palmo de distância de uma pintura original.
Leitora, óleo sobre tela, 72x102cm, 1994
Leitora, óleo sobre tela, 51x71cm, 1994
A minha decepção foi ainda maior porque eu engrosso o coro de fãs de Richter, um artista irrequieto, original e corajoso. Sua maior coragem, a meu ver, foi libertar-se de um mandamento fundamentalista da arte, aquele que prega que um artista deve possuir um estilo imediatamente reconhecível, um obra coesa, que vai de A a B e depois a C. Quem procurar coerência na obra do artista alemão dará com a cara na parede, e muitas vezes a crítica não soube como classificá-lo. Diz Richter: "A teoria não tem nada a ver com a obra de arte. Uma pintura interpretável, que contém um significado, é uma pintura ruim. Uma pintura se apresenta como o Indisciplinável, o Ilógico, o Sem Sentido". Não ter um estilo próprio nem uma obra reconhecível, afinal, acabou virando o seu estilo. Quanto às hierarquias da arte, o artista é taxativo: "Eu não acredito em nada".
Mergulhador II, óleo sobre tela, 80x80cm, 1965
Uma das primeiras fases de Richter (nascido em Dresden em 1932) mostra pinturas borradas (uma de suas marcas registradas), feitas a partir de fotos que ele tirava ou pegava em jornais e revistas. Os borrões assumem um efeito duplo: dão à imagem um aspecto fotográfico, de um "erro" mecânico e, ao mesmo tempo, atestam a interferência do pintor sobre aquela imagem, dando-lhe plasticidade e um aspecto autoral ao que seria uma simples representação da realidade. Sobre esses trabalhos, diz o artista: "Eu nunca achei que houvesse algo faltando nas telas borradas. Pelo contrário: você pode ver muito mais coisas nelas do que numa imagem com o foco preciso. Uma paisagem pintada com tal exatidão força você a ver um número determinado de árvores claramente definidas, enquanto numa pintura borrada você pode enxergar quantas árvores quiser. A pintura é mais aberta".
Fausto, óleo sobre tela, 295x675cm, 1980
Tal mecânica de apreensão/cópia/representação da realidade é, em última instância, o que interessa ao artista, e tão somente - o tema é secundário. Richter pintou à exaustão carros, aviões, animais, maçãs, velas, nuvens, praias, prédios, portas, cortinas, flores, crânios, tubos. Mesmo os retratos são pintados de forma "fria" e impessoal, seja de sua filha Betty ou dos 48 ilustres retirados de uma enciclopédia. E, com o mesmo distanciamento, passou a pintar quadros abstratos, chegando ao máximo da sistematização com as "Cartelas de Cores", série iniciada em 1966 e que se estendeu até 2007. Outras fases incluem óleos sobre papel, aquarelas, desenhos, pinturas sobre fotografia, gravuras, "microsites" e a imensa série Atlas: 783 painéis com imagens que serviram de inspiração, direta ou indiretamente, para a obra de Richter.
25 Cores, esmalte sobre Alu-Dibond, 49,7cmx48,7cm, 2007
O que liga o artista da primeira imagem desta página ao artista desta última? O que deseja, de fato, Gerhard Richter? Talvez seja melhor refrearmos o nosso intelecto e nos entregarmos aos sentidos, pois, conforme ele mesmo disse: "Falar sobre pintura não faz sentido. Ao tentar transmitir alguma coisa através da linguagem, você a modifica. Você constrói qualidades que possam ser ditas, e deixa de fora aquelas que não podem ser ditas, que são sempre as mais importantes".
Não deixe de ver o completíssimo site do artista, no link ao lado.
Clique abaixo para ver uma entrevista com Gerhard Richter (sem legendas):
Embora seja considerada inferior à obra artística e autoral (talvez injustamente), a ilustração requer um poder de síntese e uma objetividade muito difíceis de se atingir. Alguns artistas, no entanto, conseguem transitar com segurança e desenvoltura nos dois campos, como é o caso de Adams Carvalho.
Nascido em Sorocaba, SP, e morando na capital desde 1999, Adams se formou em Artes Plásticas pela Escola de Comunicação e Artes da USP em 2005. Atualmente é o ilustrador da coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de S. Paulo e da Revista da Folha. Também já fez trabalhos de animação para a MTV Brasil.
Xilogravuras digitais, s/d
Cada técnica exige uma abordagem e um talento específicos. Em desenhos, aquarelas, nanquins, xilogravuras digitais, vetoriais, acrílicas sobre papel ou óleos sobre tela, Adams se mostra excepcional, com imagens sempre evocativas - e fica evidente o quanto o talento para compor narrativas de forma sucinta se revela também nas pinturas. O ilustrador alimenta o pintor e vice-versa.
Sem Título, acrílica sobre tela, 25x50cm, 2007
Ele também possui uma série extensa de acrílicos sobre tela que mostram ambientes vazios, geralmente com pouca iluminação, às vezes com o campo de visão quase rente ao chão. O efeito, novamente, é o equivalente a uma narrativa "aberta", onde podemos povoar esses ambientes com nossos próprios personagens - e fantasmas.
Para maiores informações e ver mais trabalhos, acesse o site do artista, no link ao lado.