terça-feira, 19 de julho de 2011

Adrian Ghenie

Hoje apresento alguns trabalhos do artista romeno Adrian Ghenie, nascido em 1977 em Baia-Mare. Ghenie formou-se pela Universidade de Arte e Design de Cluj, na Romênia, onde reside, além de possuir ateliê também em Berlim, na Alemanha.

Dada is Dead, óleo sobre tela, 200x220cm, 2009

Ghenie pinta quadros figurativos sombrios, numa paleta de cores esmaecidas, ora fazendo referências a figuras históricas da política (como o ex-ditador romeno Nicolae Ceausescu e Adolf Hitler) ou das artes (como Marcel Duchamp), ora criando composições que lembram um fotograma. Ghenie diz: "Quando eu pinto, tenho a impressão que estou dirigindo um filme. Para mim, a força do cinema está em sua capacidade de projetar uma ilusão".

The Nightmare, óleo sobre tela, 145x200cm, 2007

Apesar de fazer quadros figurativos, Ghenie busca expandir suas possibilidades através do uso da técnica e da incorporação de "acidentes" no ato de pintar: "A distribuição dos elementos é estudada com precisão na composição, mas a tinta é aplicada com liberdade, em movimentos descontrolados. A tinta óleo permite uma variedade de possibilidades técnicas, que eu tento explorar em diferentes combinações. Por exemplo, eu aplico várias cores numa espátula, depois aplico diretamente à tela, e depois esfrego com alguma coisa. Estou interessado em ver o resultado de exercícios assim".

Duchamp, óleo sobre tela, 125x105cm, 2009
Sobre os retratos de Duchamp e as referências ao Dadaísmo, Ghenie delcarou: "Eu vejo momentos históricos e personalidades das vanguardas como Duchamp com grande distância e com uma perspectiva invertida. Embora eu reconheça os efeitos libertadores produzidos pela eclosão dos movimentos de vanguarda (dos quais eu sou beneficiário), não posso deixar de notar o quanto algumas de suas ideias se impuseram com tamanha força a ponto de se tornarem canônicas".

Anxious to Jump, óleo sobre tela, 118x79cm, 2007

That Moment, óleo sobre tela, 175x230cm, 2007


Mais obras do artista podem ser vistas no site da Galeria Mihai Nicodim (link ao lado).

sábado, 16 de julho de 2011

Dance Me to the End of Love

Eu tinha um livro muito bonito com a letra desta música de Leonard Cohen e imagens de Henri Matisse. Não sei onde foi parar, após várias mudanças. Bem, recrio aqui um pouco dele:




Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love







Oh let me see your beauty 
    when the witnesses are gone
Let me feel you moving 

    like they do in Babylon
Show me slowly what I only 

    know the limits of
Dance me to the end of love






Dance me to the wedding now dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, 
we're both of us above  
   Dance me to the end of love   




Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

 



Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love






Clique abaixo para ouvir a canção na voz de Madeleine Peyroux:




Leonard Cohen, "Dance Me to the End of Love" ("Various Positions", Columbia Records, 1984);
Henri Matisse: 1 - "A Dança", óleo sobre tela, 260x391cm, 1910; 2, 3 - "Jazz", colagem com papel, 1947; 
4 - "A Conversação", óleo sobre tela, 177x217cm, 1909; 5 - "Nu Reclinado", lápis sobre papel, 1935.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fotografia Erótica

Foto de Damon Loble

Muito já se discutiu sobre qual seria a linha divisória entre o erotismo e a pornografia. Algumas pessoas dizem só gostar de "nu de bom gosto", como se fosse possível estabelecer exatamente o que seria o bom gosto na representação da sexualidade humana, principalmente em seu registro fotográfico. Pretendo escrever mais adiante sobre o erotismo e a sexualidade nas artes plásticas, mas hoje quero indicar um tumblr   excelente, entre os milhares que trazem fotos de nus femininos - o Modfetish (link na barra ao lado).

Foto de J. Isobel de Lisle

Foto de Schnalli Ra
Em 1989, um museu de Washington, apoiado por congressistas, se recusou a exibir uma mostra do fotógrafo nova-iorquino Robert Mapplethorpe, sobre a alegação de que sua obra era obscena - nela havia imagens homoeróticas e sadomasoquistas. Levantou-se também a questão de que se era correto usar dinheiro público para financiar tais exibições; por outro lado, a supressão da liberdade de expressão vai contra a Primeira Emenda da Constituição americana. Até hoje essa questão não foi bem resolvida.
Ainda sobre o tema, a escritoria norte-americana Erica Jong escreveu: "Eu não sei qual é a definição de pornografia, e ninguém sabe. Pornografia é o erotismo de outra pessoa do qual você não gosta. As pessoas têm interesse na própria sexualidade e sempre a refletiram em sua arte. Fim de papo."

Foto de Katlyn Lacoste

Foto de Sinapsi

Uma coisa que se pode discutir, sem dúvida, é a qualidade artística das fotos. O Modfetish é bastante eclético nesse sentido: nele há registros de fotógrafos renomados, como Helmut Newton e Terry Richardson, e fotos de autores anônimos, algumas retiradas de sites pornôs. No entanto, ele se baseia claramente na qualidade do material - além, é claro, de sua carga erótica.

Foto de Alexey Dubinsky

Foto de Helmut Newton

O site tem uma seção hardcore chamada Modsmut - "smut" em inglês significa exatamente obscenidade. Nela, há fotos mais explícitas, inclusive da atos sexuais. Abaixo de todas as fotos há links que nos direcionam aos sites dos fotógrafos ou a outros sites de fotos eróticas.

Foto de Akif Hakan Celebi

Foto de Franklin Obregon

Mas talvez quem melhor definiu a questão tenha sido a atriz pornô e editora norte-americana Gloria Leonard: "A diferença entre uma foto pornográfica e uma foto erótica é a iluminação".

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fábio Baroli

Sigo com minha busca a artistas novos e talentosos no Facebook. A mais nova descoberta é o mineiro Fabio Baroli, que faz pinturas com uma forte carga erótica, que possuem um parentesco temático com a obra do artista norte-americano Eric Fischl, que já postei aqui no blog.

Sujeito da Transgressão #2, óleo sobre tela, 110x150cm, 2011
Fabio nasceu em Uberaba, em 1981, e formou-se em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Atualmente ele é representado pela Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro.

Narrativas Privadas, Composição 6, óleo sobre tela, 26,6x62,8cm, 2009
Uma das obras mais interessantes de Baroli é a série "Narrativas Privadas", trípticos e polípticos trazendo imagens voyeurísticas de pessoas no banho, em ângulos inusitados. 
Ele também faz retratos com cores fortes e pinceladas bruscas, sempre pintados a partir de fotos.

Nina e Márcio, óleo sobre tela, 145x95cm, s/d

Autorretrato, óleo sobre tela, 60x48cm, s/d

Pretendo escrever mais sobre arte erótica aqui, ou sobre o erotismo na arte, em posts futuros. Para ver mais obras de Fábio Baroli, veja o link ao lado para a sua página no Flickr.

domingo, 10 de julho de 2011

Touros Indomáveis

Em 1968, a Paramount comprou os direitos do livro "O Poderoso Chefão", de Mario Puzo, que faria também o roteiro do filme. O chefe do estúdio na época, Robert Evans, ofereceu o projeto a vários diretores, que recusaram. Ele então percebeu que todos os filmes sobre a máfia haviam sido dirigidos por judeus, e imaginou que seria melhor chamar um diretor italiano, para que o filme "cheirasse a espaguete". Seu colega Peter Bart sugeriu um jovem cineasta, Francis Ford Coppola. Evans relutou a princípio (Coppola era tido como um talento promissor, mas havia feito três filmes que não deram bilheteria), mas deu o sinal verde. Coppola a princípio também recusou, porque queria fazer filmes autorais - ele gostava de filmes europeus, não estava interessado num projeto "comercial" de estúdio nenhum. Porém, ele havia criado a produtora Zoetrope, que estava mal das pernas, e devia 300 mil dólares à Warner, e acabou aceitando. O resto é história - "O Poderoso Chefão" foi sucesso de crítica e público (ganhando três Oscar em 1972 - melhor filme, roteiro e ator para Marlon Brando) e Coppola alcançaria o status de grande diretor (embora sempre endividado).

As duas opções de capa da edição brasileira

Esta é uma das histórias (contadas longamente e com detalhes deliciosos) do livro "Easy Riders, Raging Bulls: How the sex-drugs-and-rock'n'roll generation saved Hollywood", do jornalista norte-americano Peter Biskind, que entrevistou pessoalmente centenas de pessoas, entre diretores, produtores, atores, roteiristas, esposas e ex-esposas, desenterrando histórias tão picantes que a revista Time Out disse que ele deve ter um belo time de advogados. A edição brasileira (Intrínseca, 502 páginas) manteve o título em inglês (dos filmes "Sem Destino" e "Touro Indomável") e traduziu o subtítulo, além de lançá-lo em duas capas. A tradução é da jornalista e crítica de cinema Ana Maria Bahiana.

Marlon Brando e Francis Coppola em 1971

O livro fala da fase que mais gosto do cinema norte-americano, a década de 70, quando um bando de novos cineastas, brilhantes, impetuosos, de certa forma arrogantes e muitas vezes irresponsáveis tomaram o poder das mãos dos grandes estúdios e fizeram aquilo que Coppola sonhava: um cinema original e corajoso, tal qual seus colegas europeus faziam. O marco zero dessa produção é exatamente o filme "Sem Destino" (1969), dirigido por Dennis Hopper, que provou que era possível realizar um filme autoral de baixo orçamento e ainda assim obter boa bilheteria, abrindo caminho para outros cineastas. E o que se seguiu foi uma avalanche de filmes memoráveis de uma geração que incluía, além de Coppola (que faria ainda "O Poderoso Chefão II e III", "A Conversação" e "Apocalypse Now"), Martin Scorsese ("Caminhos Perigosos", "Alice Não Mora Mais Aqui", "Taxi Driver", "Touro Indomável"), Peter Bogdanovich ("A Última Sessão de Cinema"), Stanley Kubrick ("2001, Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica"), John Cassavetes ("Uma Mulher Sob Influência"), Robert Altman ("M.A.S.H.", "Nashville"), Mike Nichols ("Ardil 22", "Ânsia de Amar"), Woody Allen ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", "Manhattan"), William Friedkin ("Operação França", "O Exorcista"), Hal Ashby ("Ensina-me a Viver", "Amargo Regresso"), Arthur Penn ("Bonnie e Clyde", "Duelo de Gigantes"), Alan Pakula ("A Trama", "Todos os Homens do Presidente"), Brian de Palma ("Carrie, a Estranha"), Bob Fosse ("Cabaret"), Sydney Pollack ("A Noite dos Desesperados", "Nosso Amor de Ontem"), Terrence Malick ("Terra de Ninguém"), Sidney Lumet ("Serpico", "Um Dia de Cão", "Rede de Intrigas"), George Lucas ("Loucuras de Verão", "Guerra nas Estrelas") e Steven Spielberg ("Encurralado", "Tubarão", "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"). Alguns diretores europeus também aproveitaram a onda e realizaram grandes filmes em Hollywood, como John Boorman ("Amargo Pesadelo"), John Schlesinger ("Perdidos na Noite"), Nicholas Roeg ("Inverno de Sangue em Veneza", "O Homem que Caiu na Terra"), Milos Forman ("O Estranho no Ninho"), Roman Polanski ("O Bebê de Rosemary", "Chinatown"), Bernardo Bertolucci ("O Último Tango em Paris") e Louis Malle ("Pretty Baby", "Atlantic City"). Cineastas veteranos também aproveitaram a onda e tiveram a liberdade necessária para fazer alguns de seus melhores trabalhos, como Sam Peckinpah ("Sob o Domínio do Medo"), Don Siegel ("Perseguidor Implacável") e John Huston ("Cidade das Ilusões", "O Homem que Queria Ser Rei").

Robert De Niro e Martin Scorsese em 1975

"Easy Riders, Raging Bulls" descreve a trajetória de todos esses diretores durante a década de 70, com seus problemas com os estúdios, as dificuldades nas filmagens, a relação com os atores, as drogas, as mulheres, os excessos e, por fim, como o fracasso retumbante de filmes caríssimos como "O Portal do Paraíso" (1980, de Michael Cimino, que havia feito "O Franco Atirador"), fez com que os estúdios fechassem as torneiras para financiar essa geração e retomassem o controle sobre as produções, tendo como meta uma única coisa: o lucro. Hollywood nunca havia tido e jamais voltaria a ter essa liberdade para ousar. Hoje, cineastas como Coppola e Woody Allen têm dificuldade para financiar seus filmes nos Estados Unidos. O primeiro se vale de sua produtora de vinhos para fazer filmes pequenos e independentes, o segundo vai buscar dinheiro na Europa. Nesta época de blockbusters e cineastas que filmam com um olho no visor da câmera e outro no manual de etiqueta de Hollywood, só nos resta rever esses antigos mestres e lembrar que cinema pode, sim, ser feito com originalidade e colhões.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leminskiana nº 2

     

     believe it or not
 this very if
     is everything you got

Gerhard Richter, I.G., óleo sobre tela, 72x102cm, 1993


Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Call Mr. Lee

Vernissages são eventos enfadonhos. A fruição de obras de arte exige silêncio e calma, bem diferente do burburinho das aberturas de exposições. Se a exposição é sua, espera-se que você esteja presente; seus amigos sentem-se obrigados a lhe dizer algo, e aquele "achei interessante" sempre soa como um "achei uma porcaria mas não tenho coragem de dizer na sua cara", enquanto você espera, ansioso, que o galerista venha lhe dizer que vendeu um quadro e que, portanto, você poderá sair do estado de indigência em que se encontra. Se a exposição é de algum conhecido, você precisa se esforçar para dizer algo, embora via de regra tudo que sai da sua boca é um constrangido "achei muito interessante". Se o artista é famoso, você ao menos não precisa lhe dirigir a palavra, e se você achar tudo um lixo, ficará livre para dizê-lo entre seus amigos. É claro, vez ou outra você realmente gosta do que vê, mas mesmo assim é melhor ver as obras depois da abertura, na tranquilidade de um dia de semana. O falatório das vernissages, as rodas em torno do artista, as figurinhas de sempre com suas taças de prosecco na mão, tudo isso me dá ânsia de correr na direção oposta. Não que eu não goste de conversar com artistas. Há muitos artistas talentosos e experientes com quem eu adoraria conversar, mas eu preferiria encontrá-los em outro lugar, por acaso, e trocar impressões sobre o tempo, talvez. E foi exatamente isso que aconteceu numa noite de 1998, em São Paulo.

Wesley Duke Lee (1931 - 2010)

Eu havia conhecido, através de um amigo, a decoradora Vera Leslie (que não vejo há anos) e, durante um tempo, fizemos visitas um ao outro. Certo dia, Leslie me convidou para ir ao aniversário de seu marido, Douglas, que seria em sua belíssima - e coloridíssima - casa no bairro do Ibirapuera. Chegando lá, encontrei a casa cheia, muitos amigos do casal, além de seus filhos e os amigos destes. Eu não conhecia ninguém além de Vera e Douglas, e me preparei para passar uma noite agradável mas solitária em meio a várias pessoas. Após um tempo na sala, tentando participar sem muito esforço de uma roda de conversa, me levantei e fui ao terraço da casa, tomar um ar. Lá, sentado sozinho à uma mesa, com uma garrafa de vinho tinto à sua frente, havia um homem elegante, grisalho, um fino bigode encimando um leve sorriso. Era o artista Wesley Duke Lee.

"O Nome do Cadeado é: As Circunstâncias e seus Guardiões", 1966
Wesley foi um dos artistas que mais combativos e entusiasmados da arte brasileira: pintor, desenhista, gravador, precursor dos happenings nestas bandas - nos anos 60 - e sempre um instigador. Nos anos 50, estudou no Parson's School of Design e no American Institute of Graphic Arts, em Nova York, quando entrou em contato com a Pop Art que influenciaria decisivamente o seu trabalho. De volta ao Brasil, em 1963, quando lhe impediram de expor desenhos eróticos (a série "Ligas") em museus e galerias, ele os apresentou no João Sebastião Bar, no centro da cidade, sob o título de "Grande Espetáculo das Artes". Anos depois, como uma reação ao mercado das artes (hoje as "ovelhas" se calaram para sempre) fundou o Grupo Rex, ao lado de outro então enfant terrible, Nelson Leirner, e outros artistas, e chegou a ser cobaia para um experimento com LSD em um hospital, onde se trancou numa sala para desenhar sob o efeito da droga. Em suma, um verdadeiro ícone da arte brasileira. Eu me apresentei, me sentei, e ele gentilmente me serviu uma taça de vinho.

"Birgitta Pensando", 1966

Contou-me muitas histórias; disse que com o dinheiro que ganhou com a Bienal de Tóquio de 1965 rodou o mundo até não restar um centavo, e que tinha pena de nós, artistas atuais, vítimas de uma economia acachapante e de um mercado de arte perverso. Falou-me de artistas, de mulheres, da vida. Eu, na minha arrogância, comecei com minha ladainha contra Duchamp. Eu disse a ele que tinha uma teoria sobre o francês. Wesley me serviu mais vinho:
- Eu terei o maior prazer em ouvir.
Eu lhe disse que Marcel Duchamp era um bom pintor cubista, mas que não poderia chegar ao nível de seus contemporâneos como Picasso e Braque; por outro lado, era muito mais inteligente, era um intelectual, e decidiu usar sua inteligência para destruir a arte e encontrar um meio onde se sobressaísse. Wesley acendeu um cigarro:
- Olha, eu conheci Duchamp pessoalmente. Apesar da irreverência, ele era um artista extremamente sério. Ele acreditava no que fazia.
Lembrei-me de quanto o dadaísta havia influenciado Wesley, e o quanto da mesma irreverência havia em sua obra. Ele não pareceu ofendido, muito pelo conrário: pareceu divertir-se com minha insolência. Mudamos de assunto, e ele ainda comentou que estava fazendo experimentos com arte digital. Muitas taças de vinho e muitos cigarros depois, nos despedimos. No carro, no caminho para casa, pensei na minha sorte de ter conhecido Wesley Duke Lee por acaso. O transgressor irreverente era, acima de tudo, um gentleman.
No ano seguinte, Wesley apresentaria a série "O Filiarcado", que, salvo raras exceções, foi solenemente ignorada pela crítica. Pouco antes de sua morte, em 2010, como de costume, o mercado da arte se alvoroçou. Todos, imagino, torcendo secretamente para que o velho batesse logo as botas, elevando o preço de suas obras disponíveis no mercado. Não há melhor notícia para galeristas e leiloeiros do que a morte de um artista. Mr. Lee must be laughing up there.

A propósito, o título do post é também o titulo de uma música do ótimo Television. Assista:
Call Mr. Lee - Television