terça-feira, 12 de julho de 2011

Fábio Baroli

Sigo com minha busca a artistas novos e talentosos no Facebook. A mais nova descoberta é o mineiro Fabio Baroli, que faz pinturas com uma forte carga erótica, que possuem um parentesco temático com a obra do artista norte-americano Eric Fischl, que já postei aqui no blog.

Sujeito da Transgressão #2, óleo sobre tela, 110x150cm, 2011
Fabio nasceu em Uberaba, em 1981, e formou-se em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Atualmente ele é representado pela Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro.

Narrativas Privadas, Composição 6, óleo sobre tela, 26,6x62,8cm, 2009
Uma das obras mais interessantes de Baroli é a série "Narrativas Privadas", trípticos e polípticos trazendo imagens voyeurísticas de pessoas no banho, em ângulos inusitados. 
Ele também faz retratos com cores fortes e pinceladas bruscas, sempre pintados a partir de fotos.

Nina e Márcio, óleo sobre tela, 145x95cm, s/d

Autorretrato, óleo sobre tela, 60x48cm, s/d

Pretendo escrever mais sobre arte erótica aqui, ou sobre o erotismo na arte, em posts futuros. Para ver mais obras de Fábio Baroli, veja o link ao lado para a sua página no Flickr.

domingo, 10 de julho de 2011

Touros Indomáveis

Em 1968, a Paramount comprou os direitos do livro "O Poderoso Chefão", de Mario Puzo, que faria também o roteiro do filme. O chefe do estúdio na época, Robert Evans, ofereceu o projeto a vários diretores, que recusaram. Ele então percebeu que todos os filmes sobre a máfia haviam sido dirigidos por judeus, e imaginou que seria melhor chamar um diretor italiano, para que o filme "cheirasse a espaguete". Seu colega Peter Bart sugeriu um jovem cineasta, Francis Ford Coppola. Evans relutou a princípio (Coppola era tido como um talento promissor, mas havia feito três filmes que não deram bilheteria), mas deu o sinal verde. Coppola a princípio também recusou, porque queria fazer filmes autorais - ele gostava de filmes europeus, não estava interessado num projeto "comercial" de estúdio nenhum. Porém, ele havia criado a produtora Zoetrope, que estava mal das pernas, e devia 300 mil dólares à Warner, e acabou aceitando. O resto é história - "O Poderoso Chefão" foi sucesso de crítica e público (ganhando três Oscar em 1972 - melhor filme, roteiro e ator para Marlon Brando) e Coppola alcançaria o status de grande diretor (embora sempre endividado).

As duas opções de capa da edição brasileira

Esta é uma das histórias (contadas longamente e com detalhes deliciosos) do livro "Easy Riders, Raging Bulls: How the sex-drugs-and-rock'n'roll generation saved Hollywood", do jornalista norte-americano Peter Biskind, que entrevistou pessoalmente centenas de pessoas, entre diretores, produtores, atores, roteiristas, esposas e ex-esposas, desenterrando histórias tão picantes que a revista Time Out disse que ele deve ter um belo time de advogados. A edição brasileira (Intrínseca, 502 páginas) manteve o título em inglês (dos filmes "Sem Destino" e "Touro Indomável") e traduziu o subtítulo, além de lançá-lo em duas capas. A tradução é da jornalista e crítica de cinema Ana Maria Bahiana.

Marlon Brando e Francis Coppola em 1971

O livro fala da fase que mais gosto do cinema norte-americano, a década de 70, quando um bando de novos cineastas, brilhantes, impetuosos, de certa forma arrogantes e muitas vezes irresponsáveis tomaram o poder das mãos dos grandes estúdios e fizeram aquilo que Coppola sonhava: um cinema original e corajoso, tal qual seus colegas europeus faziam. O marco zero dessa produção é exatamente o filme "Sem Destino" (1969), dirigido por Dennis Hopper, que provou que era possível realizar um filme autoral de baixo orçamento e ainda assim obter boa bilheteria, abrindo caminho para outros cineastas. E o que se seguiu foi uma avalanche de filmes memoráveis de uma geração que incluía, além de Coppola (que faria ainda "O Poderoso Chefão II e III", "A Conversação" e "Apocalypse Now"), Martin Scorsese ("Caminhos Perigosos", "Alice Não Mora Mais Aqui", "Taxi Driver", "Touro Indomável"), Peter Bogdanovich ("A Última Sessão de Cinema"), Stanley Kubrick ("2001, Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica"), John Cassavetes ("Uma Mulher Sob Influência"), Robert Altman ("M.A.S.H.", "Nashville"), Mike Nichols ("Ardil 22", "Ânsia de Amar"), Woody Allen ("Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", "Manhattan"), William Friedkin ("Operação França", "O Exorcista"), Hal Ashby ("Ensina-me a Viver", "Amargo Regresso"), Arthur Penn ("Bonnie e Clyde", "Duelo de Gigantes"), Alan Pakula ("A Trama", "Todos os Homens do Presidente"), Brian de Palma ("Carrie, a Estranha"), Bob Fosse ("Cabaret"), Sydney Pollack ("A Noite dos Desesperados", "Nosso Amor de Ontem"), Terrence Malick ("Terra de Ninguém"), Sidney Lumet ("Serpico", "Um Dia de Cão", "Rede de Intrigas"), George Lucas ("Loucuras de Verão", "Guerra nas Estrelas") e Steven Spielberg ("Encurralado", "Tubarão", "Contatos Imediatos de Terceiro Grau"). Alguns diretores europeus também aproveitaram a onda e realizaram grandes filmes em Hollywood, como John Boorman ("Amargo Pesadelo"), John Schlesinger ("Perdidos na Noite"), Nicholas Roeg ("Inverno de Sangue em Veneza", "O Homem que Caiu na Terra"), Milos Forman ("O Estranho no Ninho"), Roman Polanski ("O Bebê de Rosemary", "Chinatown"), Bernardo Bertolucci ("O Último Tango em Paris") e Louis Malle ("Pretty Baby", "Atlantic City"). Cineastas veteranos também aproveitaram a onda e tiveram a liberdade necessária para fazer alguns de seus melhores trabalhos, como Sam Peckinpah ("Sob o Domínio do Medo"), Don Siegel ("Perseguidor Implacável") e John Huston ("Cidade das Ilusões", "O Homem que Queria Ser Rei").

Robert De Niro e Martin Scorsese em 1975

"Easy Riders, Raging Bulls" descreve a trajetória de todos esses diretores durante a década de 70, com seus problemas com os estúdios, as dificuldades nas filmagens, a relação com os atores, as drogas, as mulheres, os excessos e, por fim, como o fracasso retumbante de filmes caríssimos como "O Portal do Paraíso" (1980, de Michael Cimino, que havia feito "O Franco Atirador"), fez com que os estúdios fechassem as torneiras para financiar essa geração e retomassem o controle sobre as produções, tendo como meta uma única coisa: o lucro. Hollywood nunca havia tido e jamais voltaria a ter essa liberdade para ousar. Hoje, cineastas como Coppola e Woody Allen têm dificuldade para financiar seus filmes nos Estados Unidos. O primeiro se vale de sua produtora de vinhos para fazer filmes pequenos e independentes, o segundo vai buscar dinheiro na Europa. Nesta época de blockbusters e cineastas que filmam com um olho no visor da câmera e outro no manual de etiqueta de Hollywood, só nos resta rever esses antigos mestres e lembrar que cinema pode, sim, ser feito com originalidade e colhões.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Leminskiana nº 2

     

     believe it or not
 this very if
     is everything you got

Gerhard Richter, I.G., óleo sobre tela, 72x102cm, 1993


Poema de Paulo Leminski, publicado no livro "La Vie en Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Call Mr. Lee

Vernissages são eventos enfadonhos. A fruição de obras de arte exige silêncio e calma, bem diferente do burburinho das aberturas de exposições. Se a exposição é sua, espera-se que você esteja presente; seus amigos sentem-se obrigados a lhe dizer algo, e aquele "achei interessante" sempre soa como um "achei uma porcaria mas não tenho coragem de dizer na sua cara", enquanto você espera, ansioso, que o galerista venha lhe dizer que vendeu um quadro e que, portanto, você poderá sair do estado de indigência em que se encontra. Se a exposição é de algum conhecido, você precisa se esforçar para dizer algo, embora via de regra tudo que sai da sua boca é um constrangido "achei muito interessante". Se o artista é famoso, você ao menos não precisa lhe dirigir a palavra, e se você achar tudo um lixo, ficará livre para dizê-lo entre seus amigos. É claro, vez ou outra você realmente gosta do que vê, mas mesmo assim é melhor ver as obras depois da abertura, na tranquilidade de um dia de semana. O falatório das vernissages, as rodas em torno do artista, as figurinhas de sempre com suas taças de prosecco na mão, tudo isso me dá ânsia de correr na direção oposta. Não que eu não goste de conversar com artistas. Há muitos artistas talentosos e experientes com quem eu adoraria conversar, mas eu preferiria encontrá-los em outro lugar, por acaso, e trocar impressões sobre o tempo, talvez. E foi exatamente isso que aconteceu numa noite de 1998, em São Paulo.

Wesley Duke Lee (1931 - 2010)

Eu havia conhecido, através de um amigo, a decoradora Vera Leslie (que não vejo há anos) e, durante um tempo, fizemos visitas um ao outro. Certo dia, Leslie me convidou para ir ao aniversário de seu marido, Douglas, que seria em sua belíssima - e coloridíssima - casa no bairro do Ibirapuera. Chegando lá, encontrei a casa cheia, muitos amigos do casal, além de seus filhos e os amigos destes. Eu não conhecia ninguém além de Vera e Douglas, e me preparei para passar uma noite agradável mas solitária em meio a várias pessoas. Após um tempo na sala, tentando participar sem muito esforço de uma roda de conversa, me levantei e fui ao terraço da casa, tomar um ar. Lá, sentado sozinho à uma mesa, com uma garrafa de vinho tinto à sua frente, havia um homem elegante, grisalho, um fino bigode encimando um leve sorriso. Era o artista Wesley Duke Lee.

"O Nome do Cadeado é: As Circunstâncias e seus Guardiões", 1966
Wesley foi um dos artistas que mais combativos e entusiasmados da arte brasileira: pintor, desenhista, gravador, precursor dos happenings nestas bandas - nos anos 60 - e sempre um instigador. Nos anos 50, estudou no Parson's School of Design e no American Institute of Graphic Arts, em Nova York, quando entrou em contato com a Pop Art que influenciaria decisivamente o seu trabalho. De volta ao Brasil, em 1963, quando lhe impediram de expor desenhos eróticos (a série "Ligas") em museus e galerias, ele os apresentou no João Sebastião Bar, no centro da cidade, sob o título de "Grande Espetáculo das Artes". Anos depois, como uma reação ao mercado das artes (hoje as "ovelhas" se calaram para sempre) fundou o Grupo Rex, ao lado de outro então enfant terrible, Nelson Leirner, e outros artistas, e chegou a ser cobaia para um experimento com LSD em um hospital, onde se trancou numa sala para desenhar sob o efeito da droga. Em suma, um verdadeiro ícone da arte brasileira. Eu me apresentei, me sentei, e ele gentilmente me serviu uma taça de vinho.

"Birgitta Pensando", 1966

Contou-me muitas histórias; disse que com o dinheiro que ganhou com a Bienal de Tóquio de 1965 rodou o mundo até não restar um centavo, e que tinha pena de nós, artistas atuais, vítimas de uma economia acachapante e de um mercado de arte perverso. Falou-me de artistas, de mulheres, da vida. Eu, na minha arrogância, comecei com minha ladainha contra Duchamp. Eu disse a ele que tinha uma teoria sobre o francês. Wesley me serviu mais vinho:
- Eu terei o maior prazer em ouvir.
Eu lhe disse que Marcel Duchamp era um bom pintor cubista, mas que não poderia chegar ao nível de seus contemporâneos como Picasso e Braque; por outro lado, era muito mais inteligente, era um intelectual, e decidiu usar sua inteligência para destruir a arte e encontrar um meio onde se sobressaísse. Wesley acendeu um cigarro:
- Olha, eu conheci Duchamp pessoalmente. Apesar da irreverência, ele era um artista extremamente sério. Ele acreditava no que fazia.
Lembrei-me de quanto o dadaísta havia influenciado Wesley, e o quanto da mesma irreverência havia em sua obra. Ele não pareceu ofendido, muito pelo conrário: pareceu divertir-se com minha insolência. Mudamos de assunto, e ele ainda comentou que estava fazendo experimentos com arte digital. Muitas taças de vinho e muitos cigarros depois, nos despedimos. No carro, no caminho para casa, pensei na minha sorte de ter conhecido Wesley Duke Lee por acaso. O transgressor irreverente era, acima de tudo, um gentleman.
No ano seguinte, Wesley apresentaria a série "O Filiarcado", que, salvo raras exceções, foi solenemente ignorada pela crítica. Pouco antes de sua morte, em 2010, como de costume, o mercado da arte se alvoroçou. Todos, imagino, torcendo secretamente para que o velho batesse logo as botas, elevando o preço de suas obras disponíveis no mercado. Não há melhor notícia para galeristas e leiloeiros do que a morte de um artista. Mr. Lee must be laughing up there.

A propósito, o título do post é também o titulo de uma música do ótimo Television. Assista:
Call Mr. Lee - Television

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Leonora Weissmann

A pintura foi dada como morta dezenas de vezes desde meados do século passado, mas sempre ressurge, impassível, principalmente pelas mãos de artistas mais jovens. Quanto à pintura figurativa, alguns artistas consagrados a abandonam em nome de experimentos com a abstração ou outras técnicas, como aconteceu, por exemplo com David Hockney (Inglaterra, 1937) e Gerhard Richter (Alemanha, 1932). Um dos poucos pintores figurativos renomados que jamais abandonaram a figuração foi Lucian Freud (Alemanha, 1922). Recentemente conheci a obra de uma jovem pintora de Belo Horizonte que traz um grande parentesco com as primeiras fases de Hockney: Leonora Weissmann.

"Autorretrato Sobre Mar Azul" (detalhe), acrílica s/tela, 200x150cm, 2005
"Dudu e Leopoldina sobra a mesma paisagem", acrílica s/tela, 220x320cm, 2004

Leonora é filha da pintora Selma Weissmann e formou-se pela Escola de Belas Artes da UFMG. Possui um domínio técnico absoluto, que fica evidente nos muitos retratos e autorretratos que faz - sem dúvida o tema mais difícil para um pintor. O parentesco com Hockney, a meu ver, se dá pelas pinceladas fluidas e luminosas ao pintar pessoas, e pelo tratamento quase abstrato que dá à paisagem. Em ambos os casos, Leonora mostra virtuosismo: se ela não se furta a retratar nenhum ângulo mais difícil da anatomia humana, tampouco se deixa entravar ao pintar naturezas mortas - a pincelada sempre parece fácil, firme, e os volumes ganham vida com naturalidade e leveza:

"Onda II", acrílica e vinílica sobre tela, 200x200cm, 2008
"Árvore diagonal", acrílica e vinílica sobre tela, 140x200cm, 2008

Leonora já fez uma merecidíssima exposição individual em São Paulo, em 2010, na Galeria Horizonte. Na foto abaixo, a artista diante da obra "Para Papai: Último Andar", acrílica e vinílica sobre tela, 300x200cm, 2009.


Como se não fosse bastante seu talento incomum como pintora, Leonora Weissman também é cantora. Ela é casada com o músico Rafael Martini e integra a banda Quebrapedra. Para um passeio longo e delicioso por sua obra, visite sua exposição virtual no Flickr - link na barra ao lado.

sábado, 2 de julho de 2011

Leminskiana nº 1

A partir de hoje vou postar alguns poemas, haikais e que tais de Paulo Leminski (1944-1989), brilhante escritor, poeta, compositor, tradutor poliglota e faixa-preta de judô. Este poema foi publicado no livro "La Vie En Close" (Brasiliense, 2ª edição, 1991)


RUMO AO SUMO

   Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
   cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de banda,
   lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
   sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

   Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
   do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
   Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
   Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Woody Allen: Meio-Dia em Paris, na fila do Louvre

Uma vez perguntaram a Miles Davis sobre os "anos dourados" do jazz, ao que ele retrucou: "Que anos dourados? Nós éramos pobres, desesperados. Um se suicidava, o outro vendia o instrumento para comprar droga. É isso que você chama de anos dourados?" (ou algo parecido, estou citando de cabeça). E isso nos remete a essa nossa mania de nutrirmos uma nostalgia de épocas que não vivemos, pois, no conforto de nossas poltronas, é fácil enxergar apenas o lado romântico de vidas dolorosamente conturbadas, ainda mais quando essas épocas geraram tantas obras de arte excepcionais. Nada mais suculento para um crítico do que um artista genial e trágico: ele pode aliar sua genuína admiração ao gênio a esse prazer recôndito e inconfesso que nos toma ao lermos sobre essas figuras, o mesmo prazer (inconfesso, repito) que temos ao ler sobre a morte de alguma celebridade. Nós adoramos figuras trágicas, talvez porque ela nos façam lembrar que, no final das contas, somos todos humanos. Para citar figuras do esporte, Ayrton Senna virou um ídolo, com direito a monumento público. Emerson Fittipaldi, um ícone que merecia respeito maior, é solenemente ignorado. Seu pecado? Ele continua vivo e feliz. Nós idolatramos Van Gogh e ignoramos o gênio de Cézanne, que afinal foi quem deu início a todos os movimentos do começo do Século XX. Cézanne não se suicidou como Van Gogh, não morreu pobre e alcóolatra como Modigliani (cuja mulher, grávida, se suicidaria logo depois), nem era um marqueteiro de primeira grandeza como Picasso. Era discreto, levou uma vida pacata e morreu aos 67 anos (muito para aquela época). Não importa ele ter sido um gênio e um visionário. Sua vida não teve "graça", e ele foi relegado a um pé de página.



E foi com isso em mente que vi ontem "Meia-Noite em Paris", último filme de Woody Allen. A esta altura, todos já sabem do enredo: roteirista norte-americano vai a Paris com a família da noiva, fica entediado, começa a caminhar à noite e é magicamente transportado para os anos 20, a época que ficou imortalizada no livro "Paris é uma Festa", de Ernest Hemingway, e vem causando comichões em artistas e aspirantes a artistas desde então. No livro, Hemingway fala de sua convivência com os escritores F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Ezra Pound e Gertrude Stein, cuja "Autobiografia de Alice B. Toklas" também nos dá um inspirado panorama daquela geração que havia acabado de sobreviver à Primeira Guerra. Todo mundo estava em Paris, era lá que as coisas aconteciam. Os espanhóis Pablo Picasso e Salvador Dalí flanavam por suas ruas, ao lado dos mestres franceses que criavam movimentos como quem troca de roupa. O modernismo ganhava força, as vanguardas assombravam a todos. O mundo parecia um grande gabinete de curiosidades. Vendo em restrospecto, sentimos até uma certa pena desse entusiasmo - em 1939 o mundo escureceria de vez, e Paris seria invadida pelos alemães e humilhada até 1944. Artistas se suicidariam, seriam mortos ou fugiriam como ratos na calada da noite. Quem tem nostalgia dessa época certamente preferiria pular essa parte.

O mitômano Hemingway
Antes de continuar, gostaria de dizer que sou fã de Woody Allen. Já vi quase todos os seus filmes, li seus livros, sei frases suas de cor, que vivo repetindo. Mas o humorista brilhante tem uma outra faceta, que domina a sua vida e vez ou outra emerge em seus filmes: um norte-americano neurastênico que desdenha a atual cultura de seu país (com certa razão) e um poser que venera a cultura europeia com indisfarçável inveja - aquele que emulou Ingmar Bergman em "Interiores" (1978) e agora põe todas as suas cartas na mesa - e essas cartas não têm a menor graça. No filme, Allen contrapõe seu alter ego, o roteirista Gil (Owen Wilson) ao pedante Paul (Michael Sheen), sem perceber que os dois se equivalem. Allen despreza e desdenha a sociedade americana, principalmente a de alta classe, sempre descrita como medíocre e arrogante, mas ela está sempre lá, em seus filmes, numa Nova York edulcorada, os pedantes bem-nascidos a falar de Dostoiévksi como quem fala da trufa branca do Piemonte: um artigo raro e obrigatório a se exibir durante o jantar. Gil ganha uma grana preta como roteirista, tem uma noiva bela e fútil e sonha com o romantismo da Paris dos anos 20. Em suma, Gil é um bobo, e Allen não poderia ter escolhido um ator mais abobalhado para o papel. E o fato de ele pronunciar Rodin como "road ann" só piora as coisas.
E então começa o maior problema do filme: o desfile de mitos que frequentavam os cafés e as festas da Cidade das Luzes. Se conseguir um ator para protagonizar um único personagem nessas cinebiografias já é difícil, o que dirá de vários deles. Corey Stoll tenta dar masculinidade ao seu Hemingway, mas não convence nem a própria mãe. Alison Pill nos faz acreditar que, se encontrássemos Zelda Fitzgerald tentando se suicidar, certamente daríamos um empurrãozinho. E os atores desconhecidos prestam um verdadeiro desserviço a grandes artistas: Buñuel é apenas um bobalhão, além de pouco inteligente; Toulouse-Lautrec é só um anão inexpressivo; Pablo Picasso tem o charme de uma maçaneta e Gertrude Stein é uma matrona ansiosa e tagarela (talvez fosse mesmo). A única exceção é o formidável Adrien Brody, que em cinco minutos salva o filme com sua interpretação do amalucado Salvador Dalí. Aliás, o encontro com os surrealistas, apesar do Buñuel narcoléptico, é a melhor piada do filme. E Brody lembra de algo que a maioria dos atores norte-americanos parece esquecer: que existe uma coisa chamada pronúncia, e outra chamada sotaque, e que essas coisas deveriam fazer parte da construção do personagem - a época dos soldados romanos falando inglês britânico já passou. E o desfile de celebridades dos anos 20 continua, e ficamos nos perguntando por que mesmo essas pessoas tão superficiais e pretensiosas fazem parte do nosso imaginário. A resposta é óbvia - porque foram artistas brilhantes - mas o filme sequer nos deixa entrever isso. E, no final, Allen chega à mesma conclusão que a do início do meu texto: nós sempre estamos idealizando gerações passadas e desdenhando a nossa própria. E romantizamos vidas que foram verdadeiramente dolorosas e trágicas. Hemingway, o mitômano, que gostava de armas, de brigas e de contar vantagem, se matou com uma tiro de espingarda em 1961. Sentir nostalgia já é uma bobagem. Sentir nostalgia de uma época que não vivemos é risível.