Hoje é 12 de Junho. Você está sozinho(a), achando que o Dia dos Namorados é uma grande sacanagem? Em sua homenagem, publico um poema de e.e.cummings (aquele poeta norte-americano maravilhoso que escrevia tudo em minúsculas, inclusive o próprio nome). Porque melhor do que ficar sem amor é roubar o amor dos outros.
Eric Fischl, "Dog Days" (díptico), óleo sobre tela, 1983
may i feel said he - e.e.cummings
may i feel said he
(i'll squeal said she
just once said he)
it's fun said she
(may i touch said he
how much said she
a lot said he)
why not said she
(let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she)
may i stay said he
(which way said she
like this said he
if you kiss said she
may i move said he
is it love said she)
if you're willing said he
(but you're killing said she
but it's life said he
but your wife said she
now said he)
ow said she
(tiptop said he
don't stop said she
oh no said he)
go slow said she
(cccome?said he
ummm said she)
you're divine!said he
(you are Mine said she)
No começo de 2010, um amigo me mostrou o clipe "Bad Romance", de Lady Gaga. Até então eu nunca tinha prestado atenção nela, mas ele me assegurou: "Ela é a próxima Madonna". Achei a música legal, mas a primeira coisa que me ocorreu vendo o vídeo foi que, visualmente, ela havia sugado Matthew Barney até a última gota. Os figurinos, a ambientação, a maquiagem, as cores, as situações - tudo remetia ao ciclo de cinco filmes "Cremaster" do artista contemporâneo norte-americano, obviamente de forma diluída e empacotada para caber num clipe de cinco minutos.
Matthew Barney em "Cremaster 3"
Gaga, sendo novaiorquina e atenta a tudo que acontece à sua volta, certamente deve ter assistido aos filmes, que foram produzidos entre 1994 e 2002 e culminaram numa grande exibição no Guggenheim. Mais uma pitada de Madonna, outra de David LaChapelle - além da necessária obsessão pelo sucesso - fizeram Lady Gaga ser quem ela é hoje. Outro aspecto em comum com Barney é a sexualidade fria e explorada visualmente de forma estilizada e clínica: ele vê a sexualidade como um processo biológico e histórico ("cremaster" é um músculo que, no homem, suspende os testículos, e na mulher, recobre o ligamento redondo do útero - a partir daí Barney desenvolve inúmeras analogias e imagens que remetem aos processos de desenvolvimento e transformação do Homem); Gaga diz ter escolhido a fama à vida sexual e amorosa, ao mesmo tempo em que aparece, quase sempre seminua, numa simulação de sexualidade - a escritora Camille Paglia, que adora Madonna de forma lúbrica e não perde uma polêmica, acusou Gaga de ser "uma marionete magricela, ou um andróide plastificado" que "matou o sexo", e se pergunta: "como uma figura tão calculada e artificial, tão clínica e estranhamenrte asséptica, tão desprovida de erotismo genuíno tornou-se um ícone de sua geração?"
Aimee Mullins em "Cremaster 3"
Enquanto Gaga confessadamente almeja a fama a qualquer custo, Barney é um cara tímido e avesso aos holofotes, apesar de ter se casado com a cantora Björk, com quem tem uma filha, Isadora. De sua adolescência de esportista (ele praticava luta-livre e futebol americano) em Boise, Idaho, Barney herdou um corpo atlético e a disposição para stunts perigosos. Após trabalhar como modelo e se mudar para New Haven, Connecticut, Barney começou a estudar Arte em Yale, logo chamando atenção por sua originalidade. Seu trabalho de graduação foi um vídeo, "Field Dressing", que já continha as sementes que culminariam no ciclo "Cremaster". Em 1989, ele se muda para Nova York, chama atenção da poderosa art dealer Barbara Gladstone e inicia a produção dos filmes. O primeiro a ser lançado foi o "Cremaster 4" (eles foram feitos fora da ordem cronológica), produzido com "apenas" 200 mil dólares, e obviamente o menos sofisticado visualmente, embora já repleto de ideias originais e trazendo a famosa imagem do sátiro Loughton Candidate.
"Cremaster 4"
Eu tive a oportunidade de ver os cinco filmes em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, em 2004. Confesso que nunca passei tantas horas sentado numa sala de exibição, mas saí confiante de ter visto uma das obras mais arrebatadoras da modorrenta arte contemporânea, onde vicejam artistas que nos oferecem um jantarzinho requentado de conceitos tresloucados e uma autorreferência pouco interessante, com muito pouca visualidade. Barney certamente possui um discurso complexo (Björk, que participou do filme "Drawing Restraint 9", honestamente afirmou não ter entendido completamente o conceito do filme do marido), mas nos oferece um banquete audiovisual. Porém, quem espera uma narrativa clara e linear estranhará os longos planos-sequência onde ações são repetidas ad infinitum, o encadeamento de cenas aparentemente sem ligação entre si e os personagens mudos e estranhos.
Ursula Andrews em "Cremaster 5"
De 1994 a 2004, Barney seguiu produzindo os filmes do ciclo, que foram se tornando verdadeiras superproduções, conforme ele dispunha de orçamentos maiores, culminando no espetacular "Cremaster 3", um épico de mais de três horas de duração - os demais têm cerca de uma hora, totalizando cerca de sete horas. Barney consegue alinhavar em seus conceitos seres mitológicos, gigantes, ninfas, o estádio de futebol em Idaho onde ele jogava, loiras platinadas, balões da Goodyear, o escritor Norman Mailer interpretando Houdini (o assassino Gary Gilmore, cuja vida é contada no livro "A Canção do Carrasco", de Mailer, é interpretado por Barney em um dos filmes), Ursula Andrews interpretando uma solitária rainha, o artista Richard Serra como o arquiteto do Chrysler Building, corridas de cavalo, óperas e por aí vai, numa cornucópia de símbolos misteriosos e situações exuberantes. Seus detratores dizem que muito pouco faz sentido e que o próprio Barney se complica ao explicar seus filmes, mas não esqueçamos que o grande Buñuel muitas vezes dizia filmar coisa que havia sonhado, sem se importar com o significado. Matthew Barney não é um artista surrealista, ele não cria suas obras valendo-se do "automatismo psíquico" preconizado por André Breton no Manifesto de 1924; ao contrário, ele é um artista cerebral que gosta de ruminar seus conceitos e planejar longamente suas obras. Não obstante, o resultado final é muito similar: uma deambulação onírica que nos deixa extasiados.
"Cremaster 5"
Em 2004, Barney veio ao Brasil produzir "De Lama Lâmina", rodado em Salvador durante o carnaval, e segue filmando a séria "Drawing Restraint". Mas se você estiver se perguntando onde pode ver esses filmes, sorry, eles jamais serão lançados comercialmente, e por um aspecto técnico da arte contemporânea: trabalhos audiovisuais são tratados como a obra em si, e suas cópias são limitadas e caríssimas (no caso dele). É como uma gravura: existe uma matriz, e um número x de cópias é impresso. Quanto menos cópias, mais caras elas são. Mas você pode ter um aperitivo no site www.cremaster.net, ou comprar o livro "The Cremaster Cycle" (tem na Amazon por 140 dólares), ou esperar para ver em algum museu, nas raras exibições ao redor do mundo...
Quando você cria um blog, naturalmente estabelece algumas metas e regras. A primeira regra é o tema. Eu escolhi aquele que conheço melhor, embora, como todo o conhecimento humano, seja um imenso saco sem fundo, um oceano insondável: a arte (principalmente artes plásticas, cinema e literatura). E a primeira meta, creio eu, é a frequência com a qual você escreverá. Eu imaginei que dois posts por semana estava de bom tamanho. Alguém sugeriu posts diários, mas com o volume de tradução que faço, eu não teria tempo para escrever no blog todos os dias. Hoje eu havia me proposto um post maior, mas terei que me contentar com algo mais breve.
Sem Título (Van Dyck II), óleo sobre tela, 50x57cm, 2011
Por sugestão do meu amigo Bruno Sipavicius (também artista plástico), encontrei o site do pintor italiano Alessandro Pagani (Milão, 1973), que faz interpretações interessantes de clássicos do cinema.
"O Amigo Americano" (Win Wenders, 1977), óleo sobre tela, 70x50cm, 2010
À primeira vista, logo pensamos no pintor irlandês Francis Bacon. Mas enquanto Bacon criava todo um universo pictórico, ora confinando seus personagens deformados em espaços exíguos, ora deixando-os suspensos em áreas chapadas, em composições complexas e perturbadoras de cores primárias e secundárias, Pagani se limita a pintar os stills de determinadas cenas dos filmes. Não obstante, o resultado é forte e me agrada muito.
"Sob o Domínio do Medo" (Sam Peckinpah, 1971), óleo sobre tela, 70x68cm, 2010
Em outra ocasião, escreverei sobre Francis Bacon, um dos meus pintores prediletos de todos os tempos. Por ora, mais um quadro de Pagani (o link para o site dele está aqui ao lado).
"Milano Odia" (Umberto Lenzi, 1974), óleo sobre tela, 75x45cm, 2011
Semana passada, traduzi um episódio do programa "Sem Reservas", do chef norte-americano Anthony Bourdain, para o canal Discovery. Tony, como é chamado pelos amigos, viaja pelo mundo experimentando a culinária local, e nesse programa viajaria aos cafundós do Maine, terra de seu cinegrafista Zach. Antes da viagem, ele pergunta a Zach: "Então, o que nós vamos ver no Maine?". Zach dá uma risadinha e diz: "Você já leu Thoreau?", ao que Tony responde: "Não me venha com esse papo de voltar à natureza... Mas tudo bem, se você me garantir que não haverá sodomia não-consensual". O comentário ilustra bem o que pessoas "civilizadas" (como o novaiorquino de origem francesa Tony) pensam a respeito do interior dos EUA, principalmente daqueles estados de baixíssimo índice populacional e intocados pelo desenvolvimento industrial: caipiras sodomitas e potencialmente homicidas, por pura má índole e/ou consaguinidade, conforme a imagem indelével do clássico "Amargo Pesadelo" ("Deliverance", filme de 1972 de John Boorman), onde Jon Voight, Burt Reynolds e mais dois amigos da cidade resolvem descer um rio de canoa e se dão muito mal, não sem antes participarem do famosíssimo "duelo de banjos". Outra coisa que vem à mente de todos sobre os cafundós dos EUA e a tal vida selvagem é bem mais nobre e inspiradora: o pensamento de Henry David Thoreau (1817-1862).
Na verdade, voltei a pensar em Thoreau desde que vi o filme "Na Natureza Selvagem", de Sean Penn. Filme belíssimo, com o excelente Emile Hirsch no papel de Christopher Johnson McCandless (quem o viu em "Alpha Dog" e "Milk" sabe como ele é versátil, ao contrário de certos atores famosíssimos) e boa trilha de Eddie Vedder (se bem que alguém sugeriu que Woody Guthrie teria sido melhor). Trata-se de uma história real, contada no livro "Into the Wild", do jornalista e escritor Jon Krakauer. McCandless, após se formar, em 1990, colocou uma mochila nas costas e partiu numa viagem de dois anos, passando por alguns estados até chegar ao Alasca (péssima ideia) onde acabaria morrendo de inanição. O que o movia, mais do que aventura, era um ideal de volta à natureza e autoconhecimento, fortemente alimentado pela leitura de Jack London, Tolstói, Jack Kerouac e, mais marcadamente, Ralph Waldo Emerson e Thoreau.
Mas quem foi Thoreau? Antes de mais nada, um homem acima dos seus pares e à frente de seu tempo. Nasceu e viveu na cidadezinha de Concord, Massachusetts, formou-se professor, montou uma escola com o irmão mas acabou mesmo trabalhando na fábrica de lápis do pai. Sempre foi independente, visionário e rebelde. Por sorte, era vizinho do escritor, filósofo e poeta Ralph Waldo Emerson, criador do transcedentalismo, que já pregava mais espiritualismo e menos materialismo, mais intuição e menos racionalismo. Emerson era mais velho e virou tutor de Thoreau, a ponto de chamá-lo para viver em sua casa. Após um tempo, Emerson lhe deu permissão para construir um casebre num terreno seu, às margens do Lago Walden. A princípio, ele foi para o meio do mato com dois propósitos: um, escrever um livro sobre uma memorável viagem de barco que havia feito anos antes com o seu finado irmão John; outro era conduzir um curioso "experimento econômico" em que ele pretendia inverter o hábito ianque de trabalhar seis dias e folgar um: ele queria trabalhar um dia, para seu sustento, e folgar seis, para se dedicar à contemplação e aos seus escritos. Após ouvir do povo da cidade perguntas insistentes sobre o que ele fazia sozinho no mato, resolveu escrever um ensaio, que acabou virando o clássico "Walden, ou A Vida nos Bosques".
"Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido."
Mas um dos aspectos mais peculiares, corajosos e louváveis de Thoreau era sua recusa em aceitar o controle do governo, principalmente de um governo escravocrata e colonizador (na época em guerra com o México, a que ele se opunha ferozmente) e sua pregação de uma espécie de anarquismo, que se acirrou durante a sua estada no casebre em Walden, de 1845 a 1847. Em 1846, por sua recusa em pagar um imposto, Thoreau foi preso (passou apenas uma noite na cadeia), o que o fez escrever seu famoso ensaio "A Desobediência Civil". Thomas Jefferson havia dito que "o melhor governo é o que menos governa". Um furioso Thoreau escreveu: "o melhor governo é o que não governa de forma alguma". Outra faceta nobre de Thoreau era sua defesa veemente do abolicionismo, chegando a ajudar escravos fugitivos a chegar ao Canadá. Ele escreveu: "Quando um sexto da população de um país que se elegeu como o refúgio da liberdade é composto de escravos, e quando todo um país é injustamente assaltado e conquistado por um exército estrangeiro e submetido à lei marcial, devo dizer que não é cedo demais para a rebelião e a revolução dos homens honestos. E esse dever é tão mais urgente pelo fato de que o país assaltado não é o nosso, e pior ainda, que o país invasor é o nosso".
Thoreau morreu de tuberculose, aos 45 de idade. Em seu enterro, Emerson disse: "O país não sabe o grande filho que perdeu. Sua alma foi criada para a mais nobre das sociedades; ele, em sua curta vida, exauriu todas as possibilidades deste mundo. Onde houver sabedoria, onde houver virtude, onde houver beleza, ele encontrará o seu lar".
O verdadeiro Christopher McCandless, em sua última foto
Eu considero Throreau profundamente inspirador, principalmente numa época em que o governo interfere em nossa vida de todas as formas, dizendo como devemos vivê-la; em que nossas liberdades individuais são constantemente ameaçadas e somos literalmente roubados por impostos acachapantes. Quem sabe não encontremos uma nova forma de anarquismo, ou qualquer outro movimento que nos tire da sonolência?
Obviamente não se trata de fugir para o mato e viver como um eremita (embora seja uma alternativa), pois, como anotou McCandless nas últimas páginas de seu diário: "A felicidade só é verdadeira quando compartilhada".