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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

This One's For The Boys

Hernan Bas, The Hero Centaur, 91x122cm, 2005
Hoje eu apresento o trabalho de três pintores excelentes cuja temática é, essencialmente ou em grande parte, homoerótica: Hernan Bas, Barnaby Whitfield e Christian Schoeler. Outra característica em comum a eles é a preferência pelo trabalho em papel.

Hernan Bas, The Dirt Farmer, técnica mista sobre papel,
30,25cm, 2006

Hernan Bas nasceu em Miami, em 1978, e faz uma pintura carregada de lirismo. Suas pinceladas e suas cenas bucólicas lembram as obras dos impressionistas, e as obras mais urbanas, interiores, possuem aquele romantismo blasé de Elizabeth Peyton.

Hernan Bas, Mourning the Bristol Boy, técnica mista sobre papel,
33x33cm, 2004

Num ato de extrema sinceridade, Bas declarou: "A maioria de meus trabalhos é resultado do fracasso. Eu tento pintar de forma clássica, ser um 'mestre da pintura', mas acabo caindo no impressionismo o tempo todo. Chame de impaciência, de falta de talento, mas o impressionismo é uma falha que todos nós acabamos gostando".

Barnaby Whitfield, Fag Limbo (after Hernan Bas), pastel sobre papel, 101x73cm, 2009

Barnaby Whitfield também nasceu em Miami, em 1972, e foi cantor de ópera mirim e modelo. Uma característica peculiar é a opção pelo pastel sobre papel, técnica que ele domina com perfeição. Suas imagens são carregadas de erotismo e de personagens grotescos que, segundo ele, são resposta a uma violência sofrida anos atrás.

Barnaby Whitfield, Fresh Horses, pastel sobre papel, 127x177cm, 2009

Como muitos gays, infelizmente, Barnaby passou por momentos de indecisão e culpa quanto à própria sexualidade durante a infância e a adolescência. Diz o artista: "Eu estava decidido a não ser gay, embora dormisse com meninos e meninas igualmente. Eu criei uma grande mistura de vergonha e obsessão".

Barnaby Whitfield, Little Deaths, All the Same (the Artist as an Expiring  Red Winged Blackbird), pastel sobre papel,
61x61cm, 2011

Ainda sobre seus medos e traumas, ele diz: "Eu estou tentando reverter isso com a pintura, transformado a terrível realidade num belo sonho".

Christian Schoeler, Sem Título, óleo sobre tela, 40x50cm, 2011

Christian Schoeler nasceu em Hagen, na Alemanha, em 1979, e hoje mora e trabalha em Düsseldorf. Ele executa pinturas em técnica mista sobre papel, em pequenas dimensões, retratando a juventude e a sensualidade com certo romantismo, longe do cinismo e da opção pelo bizarro de boa parte de sua geração.

Christian Schoeler, Sem Título, técnica mista sobre papel, 25x30cm, 2011

Schoeler estudou na Academia de Artes Plásticas de Munique com o famoso pintor alemão Günther Förg, completando seus estudos em 2007. Além das pinturas, o artista também produziu algumas estampas para a Luis Vuitton.

Christian Schoeler, Sem Título, técnica mista sobre tela, 75x50cm, 2010

O jovem artista alemão é representado no Brasil pela Galeria Mendes Wood, fundada em 2009. Para ver mais trabalhos desses três pintores, clique nos links na barra ao lado.

sábado, 17 de setembro de 2011

Victor Castillo

Come Play With Us, Forever, acrílica sobre tela, 120x100cm, 2009

Alguns artistas/ilustradores criam verdadeiros universos, povoados de personagens únicos, não raro imersos em situações inusitadas, retratados com um estilo absolutamente pessoal. Um desses casos é o do artista chileno Victor Castillo.

Superstition, acrílica sobre tela, 91x91cm, 2011
Youth Against Fascism, acrílica sobre tela, 90x70cm, 2009

Castillo nasceu em Santiago, em 1973, e começou a desenhar aos cinco anos de idade, inspirado pelos personagens de desenho animado que via na TV - e que o "assombram" até hoje. Outras obsessões eram os filmes de ficção científica e capas de discos de vinil, como a de "The Wall" do Pink Floyd.

Chick Habbit, acrílica sobre tela, 50x50cm, 2007

Lucy's Party, acrílica sobre tela, 121x88cm, 2010

Após participar de um coletivo de arte ainda em Santiago, onde criava esculturas e instalações em vídeo, Castillo se mudou para Barcelona, na Espanha, em 2004, onde se estabeleceu como pintor. Após visitar o Museu do Prado (em Madri) e ver as obras de Goya, ele começou a aplicar aspectos da pintura clássica em seu trabalho.

Hell Yes, acrílica sobre tela, 120x80cm, 2009

O artista chileno faz uma mistura muito interessante de personagens exóticos, aparentemente saídos de algum desenho animado do início do Século XX, acrescidos muitas vezes de presenças fantasmagóricas - como um Papai Noel diabólico - e situações esdrúxulas, pintados com uma técnica primorosa.

Para ver mais trabalhos, inclusive desenhos, visite o site https://www.artsy.net/artist/victor-castillo

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Gottfried Helnwein

Epiphany I (Adoration of the Magi), óleo e acrílica sobre tela, 210x333cm, 1996

Se você vir uma foto de Gottfried Helnwein, pensará que se trata de um roqueiro sessentão, saído de alguma banda-dinossauro: cabelo comprido, roupas pretas, óculos escuros, bandana na cabeça, anéis enormes nos dedos. A amizade com celebridades como Marilyn Manson e Arnold Schwarzenegger também não ajuda, mas não se engane: Helnwein, apesar de pouco conhecido no Brasil, é um dos maiores artistas austríacos contemporâneos.

The Murmur of the Innocents 18, óleo e acrílica sobre tela, 180x252cm, 2010
The Disasters of War 21, óleo e acrílica sobre tela, 160x240cm, 2007

Pintor, fotógrafo, cenógrafo, criador de performances e instalações, Helnwein nasceu em 1948, em Viena, e formou-se com louvor pela Academia de Artes Visuais daquela cidade - a mesma que recusou Hitler. "O maior erro da História", disse Helnwein. Feroz crítico das guerras, da xenofobia e da passividade austríaca diante do nazismo, o artista acabou deixando o país em 1985, indo morar na Alemanha e depois na Irlanda, onde vive até hoje, com a mulher e quatro filhos - que serviram de modelos para as séries The Disasters of War, produzida em 2007, e The Murmur of the Innocents, entre 2009 e 2010, que retrata crianças feridas ou mortas, algumas usando uniformes militares.

The Disasters of War 24, óleo e acrílica sobre tela, 195x242cm, 2007

Sleep 22, óleo e acrílica sobre tela, 152x112cm, 2009
São pinturas hiper-realistas feitas com precisão cirúrgica e imensas - algumas telas têm mais de 3 metros de largura. Sobre o tema, disse Harry S. Parker III, diretor do Fine Arts Museum of San Francisco: "Para Helnwein, a criança é o símbolo da inocência, mas também da inocência traída. No mundo atual, as forças malévolas da guerra, da pobreza e da exploração sexual, e a influência entorpecente e predatória da mídia agridem a sua pureza". Alguns críticos veem uma semelhança temática com a obra de Anselm Kiefer (Alemanha, 1945), também profundamente marcada pela guerra, ainda que num estilo completamente diferente.

The Disasters of War 4, óleo e acrílica sobre tela, 204x299cm, 2007

Annunciation (Mouse 12), óleo e acrílica sobre tela, 200x296cm, 2010

Helnwein também insere elementos lúdicos em suas composições, como um coelho gigante que invade uma cena ou personagens de mangás ou Mickey Mouse - um tema recorrente em suas pinturas.
Uma de suas séries que eu mais gosto - e uma das que suscitaram mais polêmica - é Epiphany, em que ele retrata cenas da Natividade. No quadro dessa série que abre este post, "A Adoração dos Reis Magos", os personagens bíblicos são substituídos por oficiais nazistas e vê-se uma Maria perfeitamente ariana. O bebê em seu colo seria o próprio Hitler.

Epiphany III (Presentation at the Temple), óleo e acrílica sobre tela, 210x310cm, 1998

Gottfried Helnwein em seu ateliê na Irlanda

Vale a pena percorrer o site do artista (link ao lado), que possui reproduções em alta resolução de todos os seus trabalhos. É curioso também ver a sessão estilo Caras, com Helnwein e sua família em seu castelo na Irlanda, ao lado de celebridades como Sean Penn, e os registros de seu processo de trabalho.

domingo, 11 de setembro de 2011

Tim Eitel

Opening, óleo sobre tela, 274x219cm, 2006

Um dos pintores "emergentes" mais interessantes atualmente é o alemão Tim Eitel. Nascido em Leonberg, em 1971, ele primeiro estudou Filosofia na Universidade de Stuttgart, depois concluindo o curso de Artes Plásticas na Universidade de Arte e Design de Halle, em 1996. De 1997 a 2001, estudou pintura na prestigiosa Escola de Artes Visuais de Leipzig. Ele faria ainda residência artística em Los Angeles, em 2005, e em Nova York, em 2006.

Reflection, óleo sobre tela, 205x250cm, 2010
Asphalt, óleo sobre tela, 272x318cm, 2007
Eitel fez sua primeira exposição individual em 2000, na cidade de Ulm, e segue bastante ativo até hoje. Sua última individual foi em 2010, na Galeria EIGEN + ART, em Berlim.


Pool, óleo sobre tela, 89x89cm, 2002
Untitled (View), óleo sobre tela, 2002
Segundo Eitel, seu interesse por pintura surgiu na adolescência, após visitar uma retrospectiva de Francis Bacon. Apesar de optar por um figurativismo mais naturalista, ainda sim podemos ver ecos do pintor britânico em alguns ambientes em cor chapada que parecem enclausurar as pessoas.
 
Container, óleo sobre tela, 210x300cm, 2004


Little Hill, óleo sobre tela, 24x24cm, 2003
O artista alemão cria imagens de isolamento e abandono, em ambientes estéreis como aeroportos e museus. Mesmo quando pinta paisagens, Eitel capta algo de intangível nelas, tal qual um Edward Hopper contemporâneo. Mais uma prova de que a pintura, muito além do que podem desejar os teóricos das artes, carrega mais mistério do que explicações, e fala mais aos nossos sentidos do que à nossa razão.


Para ver mais alguns trabalhos do pintor alemão, clique no link na barra ao lado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Lui Liu

Mud Girls, óleo sobre tela, 109x152cm, 2009

Hoje apresento mais um pintor chinês contemporâneo formidável: Lui Liu. Nascido no Norte da China em 1957, ele começou a carreira pintando cartazes para a Revolução Cultural ainda garoto, depois ingressando na prestigiosa Academia de Artes Plásticas de Beijing, onde aprendeu e desenvolveu sua técnica.

Spring Thunder, óleo sobre tela, 119x152cm, 2009

Lui Liu foi influenciado tanto pela arte chinesa quanto a ocidental, em particular pelo pintor neoclássico francês Ingres (1780-1867). Ele usa apenas três cores: terra-de-siena, amarelo e azul-da-prússia, além de preto e branco para dar gradação.

Show Boat, óleo sobre tela, 101x152cm, 2006

Street Vendor, óleo sobre tela, 78x63cm, 2009

Em 1991, Lui Liu se mudou para Toronto, no Canadá, onde reside até hoje com a mulher e a filha. Sua pintura exuberante, com uma mistura de temas ocidentais e orientais, fez com que ele fosse imediatamente aceito pelo circuito de artes no Canadá, e posteriormente no mundo todo.

Tic Tac Tattoo I, óleo sobre tela, 157x121cm, 2003

Tic Tac Tattoo II, óleo sobre tela, 157x121cm, 2003

Após o período de opressão e pobreza na China, Liu, vindo de uma família disfuncional, encontrou no Ocidente o que ele diz mais valorizar: a liberdade. Sobre seus primeiros trabalhos, ele diz: "A princípio, minhas pinturas revelavam mistério, inquietação, vazio, isolamento".

Beijing 2008, óleo sobre tela, 121x152cm, 2006

Ao escrever sobre o trabalho de Lui Liu, o crítico Frank Provenzano analisou o excessivo individualismo da arte contemporânea, com sua natureza "aparentemente inacessível e esotérica", contrapondo-o à visão do artista chinês, que afirma: "Todos querem ser diferentes, individualistas. É um individualismo excessivo. Na cultura chinesa, não há como você se destacar e ser diferente". O fato é que, desejando-o ou não, Lui Liu é um artista único.


Lui Liu

Para ver mais obras do artista, clique no link na barra ao lado.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sarah Awad

Meditation on the Fall, óleo sobre tela, 182x228cm, 2011

Sarah Awad nasceu em 1981, em Pasadena, na Califórnia. Concluiu bacharelado em Matemática em 2003, pelo Claremont McKenna College, e em Artes Plásticas em 2007, pelo Art Center College of Design. Em 2011, concluiu seu mestrado em Artes Plásticas pela University of California.

Monument, óleo sobre tela, 76x96cm, 2011

Amphitheatre, óleo sobre tela, 68x76cm, 2010

Sarah faz uma pintura excelente, usando óleo sobre tela e também sobre papel, e tem uma certa predileção por espaços abertos e vazios - de certa forma, podemos classificá-la como uma agoramaníaca. Suas pinceladas são fluidas e sua pintura é quase toda feita de luz. Sombras de imiscuem de modo tímido, e as cores são esmaecidas, sem grande dramaticidade.

Deck, óleo sobre tela, 71x55cm,  2010

Other Versions of Ourselves, óleo sobre tela, 137x182cm, 2009

Trata-se de uma artista jovem, de apenas 30 anos, mas que tem uma produção sólida e constante desde 2008, ano de sua série "War Games", que mostra homens em luta na técnica óleo sobre papel. Em 2011 ela ganhou a sua primeira exposição individual, Instruments of Culture, na James Harris Gallery, em Seattle.

Audience, óleo sobre tela, 106x121cm, 2010

Good Will, óleo sobre tela, 165x137cm, 2010

Para ver mais trabalhos de Sarah Awad, clique no link na barra ao lado.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Muntean & Rosenblum

Legenda: "Meninas amadurecem mais rápido do que meninos, acho."

Uma das coisas mais raras nas artes plásticas, principalmente na pintura, é o trabalho colaborativo. Uma das únicas exceções que conheço é a dupla Muntean & Rosenblum. Markus Muntean nasceu em Graz, na Áustria, e Adi Rosenblum, em Haifa, em Israel. Ambos são de 1962 e começaram a trabalhar juntos em 1992.

Legenda: "O dia não nos promete mais do que o dia, e sabemos que ele tem uma certa duração e um fim. Nós esperamos em vão por algo que não sabíamos que estávamos esperando, e no fim não houve nada senão o lento cair da noite"

Sobre a parceria, diz Muntean: "A autoria dupla tem a mesma função que as margens brancas, que colocam a pintura entre parênteses. Essas margens brancas têm a conotação de história em quadrinhos ou monitores de TV. Elas nos permitem lidar com questões pictóricas e iconográficas, assim como a questão da autoria".

Legenda: "Nós olhamos um para o outro sem ver. Escutamos um ao outro
e ouvimos apenas uma voz dentro de nós mesmos."
Legenda: "O dia chegou ao fim de repente, deixando a sensação de sua brevidade,
deixando-nos aflitos por um sentimento que não conseguimos explicar."

A dupla usa composições reminiscentes do Renascentismo em suas pinturas para retratar uma juventude deslocada e apática, e complementa a obra com legendas que, antes de explicar ou limitar as imagens, oferecem um contraponto a elas, no que eles chamam de "ambiguidade exata": o que se explora é exatamente a falta de espiritualidade e de propósito dos jovens hoje em dia.

Legenda: "Errar no próprio caminho é melhor do que acertar no caminho alheio."

Legenda: "Mas, principalmente, houve um momento de silêncio absoluto... Uma leve luz solar, uma leve brisa, algumas árvores no horizonte. O desejo de ser feliz, a tristeza com a passagem do tempo, e a sempre encoberta verdade...
Só isso... Nada mais..."

Com uma técnica bastante depurada, Munten & Rosenblum criam pinturas monumentais, que o crítico Jonathan Jones, do Guardian, chamou de "um cruzamento entre Andy Warhol e Jacques-Louis David", referindo-se ao papa da Pop Art e o pintor neoclássico francês. Eu tive a oportunidade de ver suas obras na 26ª Bienal de São Paulo, em 2004, e pude constatar o impacto visual que elas causam.

As pinturas em exposição
Markus Muntean & Adi Rosenblum

Num mundo cada vez mais materialista e menos espiritualizado, a obra de Muntean & Rosenblum nos faz pensar na sociedade que criamos para nós mesmos, com adultos resignados e autômatos e e adolescentes indiferentes demais para desejar mudá-la. Numa das legendas da dupla, lê-se: "Não ter um passado nem um futuro visível, apenas o pulso constante de um presente imutável - como você se sentiria?"